Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 26/08/2020

Definido pelo dicionário australiano Macquarie como o “termo do ano” de 2019, a cultura do cancelamento surgiu com a nova fase da internet, na qual esta é mais usada para debater pautas sociais e políticas. Em 2020, esse termo apresenta ainda mais relevância por ser uma espécie de “linchamento virtual” em que, apesar de seus adeptos acreditarem ser uma ferramenta de punição moral, suprime o direito de expressão e causa danos à saúde mental dos cancelados.

É relevante destacar, antes de tudo, que existe um paradoxo entre o papel da rede social e a cultura do cancelamento. Isso porque, ao passo que as plataformas digitais ampliam o poder de comunicação, os punidores morais vetam a liberdade de expressão. Nelas, cada usuário define suas regras, não há uma lei ou instituição que as comandem, quem as regem são as compatibilidades de pensamento ou atitudes de seus usuários, o que abre caminho para possíveis discordâncias de ideias e posterior cancelamento.

Convém analisar, além disso, que esse paradoxo amplifica discursos preconceituosos e intolerantes, o que acarreta danos psicológicos as suas vítimas. Pois, na tentativa de gerar uma conscientização moral em seu alvo, parte dos usuários proferem palavras hostis. Existem diversas pessoas cadastradas nas redes sociais, cada uma com seus pensamentos e particularidades. Um “ato moralista” pode torna-se um ato extremista e permanente na vida de quem o sofreu.

Fica evidente, portanto, que a cultura do cancelamento não é só uma questão cibernética, mas também social. Diante disso, é importante conscientizar sobre a diferença entre o engajamento em discussões e o abuso de censura e perseguição. Para tal, deve-se usar as próprias redes sociais para que educadores, psicólogos, políticos, pessoas do sistema judiciário– através de lives, stories e postagens– possam instruir e mobilizar seus seguidores, de modo que todos entendam que, mesmo sem regras explícitas, há a necessidade de limites nas plataformas digitais.