Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/08/2020
De acordo com o conceito de modernidade líquida, estabelecido pelo sociólogo Zygmunt Bauman, as relações entre os indivíduos, na sociedade contemporânea, são marcadas pela superficialidade e pela instabilidade. Nesse contexto, uma vez que os vínculos sociais são cada vez mais frágeis, abre-se espaço para a intensificação da cultura do cancelamento, em que as pessoas são descartadas e boicotadas devido à atitudes consideradas inadequadas para determinado grupo social. Sendo assim, é de fundamental importância compreender as causas e consequências provenientes da cultura do cancelamento.
Em primeiro lugar, o cancelamento é encarado por muitos como uma forma de justiça social. Conforme o sociólogo Michel Focault, em sua obra “Vigiar e Punir”, há, na sociedade moderna, o surgimento de novas modalidades de poder, de caráter disciplinador e que se estendem a diversas esferas da vida. Dessa forma, as redes sociais exercem um poder cada vez maior sobre os indivíduos que, frequentemente, são considerados culpados no meio digital antes mesmo de serem julgados pela justiça. De maneira análoga, o episódio “Odiados pela nação”, da série britânica “Black Mirror”, retrata a perseguição e o assassinato sofrido por uma jornalista após receber comentários de ódio, nas redes sociais, a respeito de uma de suas matérias.
Ademais, a cultura do cancelamento desrespeita direitos básicos garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, como o direito à liberdade de expressão e à dignidade. Portanto, além do boicote a que estão sujeitas, muitos são os impactos causados na vida dessas pessoas devido á tal cultura, como a perda do emprego e o desenvolvimento de doenças psicológicas, como a depressão. Assim, a ausência de uma legislação que controle os efeitos causados pelo cancelamento e que assegure os direitos individuais dos cidadãos, tal fenômeno pode assumir proporções perigosas.
Logo, é fundamental que medidas sejam tomadas a fim de evitar a persistência da cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Para isso, o Ministério da Educação deve ser responsável por incluir no currículo escolar aulas de cidadania, sociologia e filosofia, com o objetivo de formar cidadãos que saibam a importância da empatia e da tolerância para a vida em sociedade, além de compreenderem a responsabilidade por trás da cultura do cancelamento nas redes sociais. A mídia, por sua vez, deve criar propagandas que informem e conscientizem acerca dos efeitos negativos de tal cultura, oferecendo maneiras alternativas para a solução de conflitos, ao incentivar o diálogo e o exercício da empatia. Somente assim será possível construir uma sociedade mais justa e tolerante.