Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 28/08/2020
Conhecido por muitos como ‘‘pai da filosofia’’, Sócrates fora acusado de corromper a juventude grega por abrir-lhes os olhos e incentiva-los a pensar por si mesmos, duvidando das informações tidas como verdades, sendo, posteriormente, condenado à morte, pois os governantes da época não possuíam a mesma compreensão que o filósofo. Considerando que tal episódio tivesse ocorrido no período atual, poderia se dizer que o estudioso havia sido cancelado. Tal termo ganhou força no ano de 2017 e designa o boicote a personalidades ou instituições que cometeram atitudes duvidáveis, sendo apoiado na forte intolerância da sociedade contemporânea e causando a promoção de discursos de ódio.
Inicialmente, a essência do cancelamento consistia em dar voz as minorias possibilitando-as a expor instituições ou personalidades que cometeram atitudes impróprias, para que as autoridades competentes tomassem medidas, porém houve banalização desse instrumento. Nas atuais ocorrências, os cancelamentos surgem por uma questão de diferenças de opinião, servindo não mais como uma forma de denúncia e sim para linchar pessoas com posicionamentos contrários ao seus, essa intolerância pode ser explicada pela forte valorização da cultura do eu. Popularmente conhecida, mas raramente discutida, essa cultura incentiva o individualismo, promovendo a valorização do seu em detrimento ao outro, invalidando qualquer atitude ou pensamento divergente do próprio.
Conseguinte dessa intolerância, o cancelamento passou a disseminar não mais alertas e denúncias, mas discursos de ódio, denegrindo a imagem de personalidades por atitudes infelizes cometidas por essas. Segundo Foucault, o verdadeiro poder não está presente no Estado, e sim no discurso, pois esse consegue mover massas e formar uma coesão entre sociedades, portanto é necessário ser cuidadoso ao proferir uma fala, física ou virtualmente, pois tais palavras, se pronunciadas por uma grande massa de pessoas, são capazes de destruir a vida de um indivíduo. Tais pronunciamentos odiosos ganham força por basicamente dois motivos, a forte alienação, que incita usuários a aderir a um posicionamento pois há muitas pessoas nele, sem de fato pesquisar sobre, e a presença de um júri virtual, em que o acusado não possui espaço de fala para defender-se.
Nessa conjuntura, fica perceptível a necessidade de medidas para garantir que o cancelamento ocorra de acordo com sua intencionalidade original, como a inclusão no currículo escolar de debates relacionados a respeito de opiniões divergentes pelo MEC, em parceria com as Secretarias de Educação, para que crie-se uma sociedade mais aberta á diversidade. Não obstante, também é necessário o controle de ataques massificados, realizados pelas próprias plataformas digitais, para controlar ataques que passam do limite de liberdade de expressão, ferindo a integridade de terceiros.