Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 25/08/2020

No episódio ‘‘Urso Branco’’ da série da televisão britânica Black Mirror, é retratado um futuro distópico e caótico onde uma mulher que teve a memória apagada, é condenada a sofrer diariamente perseguições por seus erros do passado enquanto várias pessoas filmam sua agonia. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada pela série pode fazer analogia a cultura do cancelamento contemporâneo, que consiste no boicote de personalidades, famosas ou não, que praticaram  comportamentos públicos considerados inadequados. Nesse sentido, é válido analisar como surgiu a cultura do cancelamento e seus efeitos, sobretudo, nefastos na vida das pessoas.

Primeiramente, cabe considerar que a cultura do cancelamento surge como um movimento de romper uma estrutura de poder para fazer uma denúncia que antes não era ouvida. A partir disso, comportamentos considerados desrespeitosos, como por exemplo, discursos homofóbicos, racistas ou misóginos são repudiados e seus autores cancelados, ou seja, tem sua conta banida ou até mesmo  perdem seguidores nas redes sociais,  como foi o caso da influencer e modelo Gabriela Pugliesi que sofreu represália e ficou afastada das redes sociais desde abril devido a polêmica festa que fez  em sua casa após receber disgnóstico de curada do coronavírus, durante o período de isolamento social, que desrespeitou as normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e colocou em risco a saúde pública.

É importante mencionar, no entanto, que apesar de o movimento ter surgido para uma boa causa, essa cultura pode tornar os canceladores pessoas críticas demais além de intolerantes, o que nunca é saudável para ninguém. Já os cancelados podem sofrer psiquicamente com as consequências de algum tipo de represália ou julgamento mais duro. Abandono, desprezo, desconsideração e esquecimento são alguns sentimentos que podem atingir a pessoa cancelada, afetando sua saúde mental, o que deixa claro que a cultura  cancelamento não deve ser o objetivo final, mas sim a mudança nas estruturas que geram comportamentos desrespeitosos, assim como dizia o filósofo Voltarie:‘‘O preconceito é a opinião sem conhecimento’’.

Portanto, é necessário que medidas sejam tomadas para que hajam mudanças na sociedade. Para conscientizar as pessoas de que o cancelamento gera problemas, urge, que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) crie, por meio de verbas governamentais, palestras com psicólogos e pedagogos  nos veículos midiáticos e nas escolas que fortaleçam as relações interpessoais e com isso, estimulem a população a saber lidar  de formas menos agressiva com outras pessoas quando for proferido alguma palavra ou ação que desagrade. Com isso, será possível manter a harmonia social, promover a evolução intelectual das pessoas e minimizar a cultura do cancelamento.