Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 25/08/2020

O episódio Natal, da série “Black Mirror”, relata o drama vivido pela sociedade distópica, na qual, por meio de dispositivos de realidade aumentada, as pessoas podem ser “bloqueadas”, tornando-se invisíveis umas às outras. Embora ficcional, a obra assemelha-se à conjuntura hodierna, tendo em vista a recente cultura do cancelamento em ênfase, sobretudo, na esfera virtual. Nesse sentido, faz-se imprescindível a análise da homogeneização do pensamento e da supressão da liberdade de expressão, como fatores que corroboram a problemática.

Sob esse viés, é importante pontuar o perigo da padronização das opiniões públicas. Acerca disso, a partir do conceito de “Sociedade do Espetáculo”, o escritor francês Guy Debord reitera o processo de homogeneização dos gostos, já que o espetáculo anunciado suplanta a atividade individual. De semelhante modo, o monitoramento das opiniões alheias condiciona o indivíduo a pensar dentro dos padrões pré-estabelecidos, sendo excluído e rechaçado à medida que diverge da ideologia coletiva das massas. Ademais, sob o subterfúgio do espetáculo, a opinião contrária ou antiética é sensacionalizada e difundida, contudo, é pouco debatida e, dessa forma, ineficiente para a resolução dos problemas sociais, uma vez que não promove a criticidade do sujeito.

Além disso, cabe ressaltar, ainda, a importância da liberdade de expressão para o enriquecimento do debate público e para a transformação do cidadão. Sob esse prisma, a cultura do cancelamento contrapõe-se aos termos Constitucionais vigentes que garantem ao cidadão brasileiro o direito à liberdade de expressão e à consciência individual e, desse modo, impossibilita boa parte do corpo social de alcançar essa emancipação, tendo em vista a supressão da expressão do pensamento individual supracitado. Outrossim, de acordo com o conceito de “Plasticidade do Cérebro” a Neurociência explica a capacidade do cérebro refazer ligações entre os neurônios à medida em que é exposto a novas ideias. Depreende-se, portanto, que impedir a livre circulação de opiniões, não só priva o cidadão de direitos assegurados constitucionalmente, como também impede a desconstrução de pensamentos para a construção do caráter do cidadão.

Destarte, é fundamental alternativas que dissolva tal cenário. Para tanto, urge que o Ministério da Educação promova debates sobre as responsabilidade Executivas em assegurar os direitos regidos na Carta Magna e a importância da opinião do outro na construção da identidade individual, por meio da inserção dessas pautas na grade curricular do Ensino Médio – ministradas por profissionais da área de ciências humanas - com o intuito de forjar no cidadão o senso crítico. Dessa maneira, será possível propor ao outro novos ideais, ao invés de simplesmente “bloqueá-los”.