Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 26/08/2020

A lei do Marco Civil, aprovada em 2014, foi de extrema importância para estabelecer normas no ambiente virtual e  garantir a liberdade de expressão na internet. Entretanto, muitos usuários das redes sociais cruzam a linha entre expor suas opiniões e pensamentos e iniciam uma propagação de discursos de ódio disfarçados de posicionamento crítico. Por conseguinte, urge o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, bem como as suas consequências para o corpo social como um todo.

A priori, o termo cultura do cancelamento, aparentemente, surgiu com o movimento “Me too” (BBC News) pela luta contra o abuso e assédio sexual, no qual as vitimas expunham seus agressores. Posteriormente o termo se difundiu e ficou cada vez mais trivial, se destoando do objetivo original de debater temas importantes na sociedade. Essa banalização do termo é muito negativa, ao passo que as pessoas “cancelam” alguém racista, machista, homofóbico entre outros, apenas com o intuito de receber likes e ganhar visibilidade em cima de causas complexas, e não porque se importam com a luta, exaltando, dessa forma, o linchamento virtual ao invés da resolução dos conflitos em questão.

Ademais, durante o Big Brother Brasil 2020 a cantora Manu Gavassi se mostrou defensora de pautas relevantes sobre as minorias, no entanto, foi chamada de racista e “cancelada” ao fazer um comentário sobre a combinação de tons de pele, tendo toda a sua trajetória no programa invalidada devido a uma fala mal interpretada. Esse cenário denuncia a problemática da situação: não importa a boa conduta da pessoa ou as desculpas pelas suas falhas, a partir daquele momento ela será definida por um único erro. Isso cria um ambiente hostil nas redes, onde não há espaço para o diálogo, o arrependimento ou críticas construtivas, se torna apenas um monólogo de acusação e apontamento.

Portanto, medidas são necessárias. Os coordenadores de aplicativos como Twitter, Facebook e Instagram devem alertar e conscientizar os usuários, por meio de posts e algoritmos, quanto à necessidade de rever os objetivos dessa cultura, que deve ser questionar falas e atitudes que possam causar algum dano a qualquer cidadão, e não promover o linchamento e discursos de ódio que rotulem os indivíduos por suas falhas . Espera-se, com isso, ressignificar a cultura do cancelamento e garantir um ambiente saudável nas redes sociais, em que os internautas possam socializar de maneira construtiva tanto para o mundo virtual quanto para o mundo real, validando assim, a lei do Marco Civil.