Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

No livro Falso Espelho, de Jia Tolentino, são exploradas as relações que os indivíduos estabelecem, com eles mesmos, na internet. Na obra, é apresentado o artigo “O eu na internet”, no qual Jia afirma que os mecanismos de recompensa online estão substituindo a busca por aprovação na vida real. Fora do livro, o conteúdo apresentado por Tolentino pode ser identificado na sociedade atual, na qual as pessoas acreditam que só serão aceitas em uma rede social se concordarem com determinado posicionamento de um internauta. Caso contrário, sofrerão as consequências da cultura do cancelamento. A mesma, apesar de dar espaço para opinião de diversos usuários, uma vez que 3,5 bilhões de pessoas participam de redes sociais. Essa cultura, infelizmente, visa o cancelamento do indivíduo como objetivo final, excluindo a possibilidade de mudança nas estruturas que geraram o comportamento.

A cultura do cancelamento surgiu com o movimento Me Too, que, desde 2017, denuncia o assédio sexual de homens contra mulheres. Por meio de redes sociais, mulheres vítimas de violência sexual puderam compartilhar seus relatos e, consequentemente, os abusadores foram sentenciados. Esse episódio conseguiu dar vozes às mulheres vítimas de abuso e às opiniões de grupos específicos. A indignação da população perante situações que antes passavam despercebidas, somado à punição judicial sob os criminosos, trabalham em conjunto para que haja uma sociedade mais respeitosa.

Contudo, diferente do #MeToo, em que “cancelados” foram punidos judicialmente e puderam refletir sobre suas atitudes, nem todas as situações acabam dessa maneira. Muitas vezes, na internet, o cancelamento do indivíduo é visto como objetivo final, tirando a possibilidade de uma conversa saudável entre os indivíduos, que facilmente resolveria o problema. A falta de conversa impossibilita a defesa do ponto de vista de um dos envolvidos e, consequentemente, a busca por mudanças nas estruturas.

Torna-se evidente, portanto, que ainda há muito que avançar nos debates sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Sendo necessário, então, que se recorra a agentes sociais, de forma que proponham ações para resolver a situação. Cabe ao Governo Federal, por intermédio do Ministério Da Educação, aplicar palestras, com profissionais capacitados, sobre educação digital nas grades curriculares de escolas públicas e particulares do país. Propondo conversas saudáveis sobre a cultura do cancelamento e as melhores formas de resolvê-la.