Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/08/2020
Na visão do escritor Umberto Eco, os meios tecnológicos contemporâneos permitem que “idiotas” adquiram influência e, assim, prejudiquem a coletividade. Embora tenha um viés agressivo e radical, o ponto de vista do escritor suscita reflexões acerca dos deveres que advêm do direito à liberdade de expressão. Tais reflexões podem ser aplicadas à polêmica questão da “cultura do cancelamento”, cuja popularidade crescente, estimulada pelo sentimento de segurança fornecido aos usuários no ambiente virtual, vem contribuindo para a normalização do preconceito e da violência moral.
Primeiramente, é necessário destacar que o grande volume de informações diariamente adicionadas ao meio virtual, bem como a possibilidade de anonimato por parte dos usuários, são fatores que propiciam uma sensação ilusória de segurança dentro desse meio. Com a oportunidade de encobrir a verdadeira identidade somada ao elevado fluxo de informações, que parece reduzir a influência de uma publicação isolada, os indivíduos se sentem livres para compartilhar quaisquer manifestações de opinião, ainda que com o intuito de difamar, ou “cancelar”, uma pessoa ou uma organização. A série “Black mirror” retrata bem essa realidade por meio de um episódio no qual, em um futuro fictício, ocorre a popularização de um site em que os usuários podem selecionar uma pessoa desprestigiada na internet para que ela seja virtualmente “morta”.
Nesse sentido, a cultura do cancelamento, originalmente criada com um viés de, acaba por converter-se em uma prática exclusiva e favorável ao preconceito. No contexto atual, é suficiente expor à internet uma conduta reprovável, cuja data de realização torna-se irrelevante, para que uma pessoa seja atacada por desconhecidos no meio virtual e, eventualmente, “cancelada”. Dessa forma, muitos indivíduos e organizações, famosos ou não no ambiente cibernético, têm suas reputações reduzidas a erros que ganharam grande repercussão virtual, e é válido ressaltar que a cultura do cancelamento despreza as possibilidades de arrependimento e progresso por parte dos “cancelados”.
Em suma, a cultura do cancelamento consiste em um dos efeitos da irresponsabilidade nos meios de comunicação criticada por Umberto Eco. Portanto, faz-se necessária a mobilização social em prol da conscientização sobre o cancelamento virtual descontrolado. É essencial que fontes midiáticas de informação exponham, por intermédio dos meios de comunicação de maior abrangência, os efeitos prejudiciais que o cancelamento virtual pode ter sobre o comportamento coletivo, visando afetar, principalmente, a população mais jovem, que, em geral, encontra-se mais inserida no meio virtual. Assim, será possível mitificar os efeitos dessa cultura contemporânea e reforçar a importância da responsabilidade que acompanha o direito à liberdade de expressão.