Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

Com o desenvolvimento inicial da internet na década de 1970, o movimento de contracultura reivindicava a questão do livre acesso à internet e o uso dela de forma pacífica. Entretanto, esse último anseio não foi alcançado, uma vez que elementos como a cultura do cancelamento, os quais mesmo possuindo alguns benefícios, são vigentes e causam prejuízos sociais. Nesse canário, essa conjuntura apresenta como principais consequências o desenvolvimento de uma opinião única aceitável socialmente e a geração de um júri virtual que não tem preocupação social com os julgados.

Conforme Nicolau  Maquiavel, um indivíduo deve utilizar de todos os mecanismos disponíveis para chegar ao bem comum. Sob essa perspectiva, os canceladores expõem publicamente pessoas que realizaram comportamentos considerados incorretos, em nome do bem comum. Entretanto, o filósofo não considera o fator relativo do bem comum, da mesma forma que os internautas. A título de exemplo, o rapper americano Kanye West foi cancelado ao decidir prestar apoio político ao presidente norte-americano Donald Trump, com a justificativa de não estar contribuindo para o movimento negro. Nesse cenário, percebe-se o caráter impositório desse sistema, o qual gera uma ditadura virtual, onde não é possível se expressar socialmente, com medo de retaliações.

Ademais, outra consequências dessa estrutura é a geração de um júri virtual que não tem uma preocupação social mínima com os julgados. Essa análise pode ser vista na teoria de modernidade líquida de Zygmunt Bauman, na qual os indivíduos tendem a viver uma sociedade marcada pelo individualismo e pela falta de empatia. Nesse cenário, são comuns eventos como o cancelamento de Emmanuel Cafferty, que foi exposto por estalarmos dedos no trânsito e parecer que estava fazendo um sinal de ok com a mão, que possui uma conotação racista nos Estados Unidos, por conseguinte, o usuário difamado ficou desempregado. Dessa forma, percebe-se o caráter contraditório do movimento.

Infere-se, pois, que o Ministério da Cultura, em parceria com as redes sociais, deve criar campanhas, com o uso de hashtags, para conscientizar os usuários sobre a importância da tolerância e respeito às opiniões de outros internautas. Ademais, as redes sociais devem criar uma divisão para dar apoio aos usuários que foram cancelados e boicotados virtualmente, com o objetivo de minimizar os efeitos do cancelamento, revertendo essa falta de preocupação social do movimento, para um possível aprendizado pelo indivíduo da necessidade da responsabilidade virtual.