Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/08/2020
A cidade de Salém, no final do século XII, foi palco de histeria geral em um fenômeno que ficou conhecido como “caça as bruxas” no qual pelo menos 19 mulheres foram queimadas por atos suspeitos e fofocas. Em paralelo aos tempos atuais, com o advento das redes sociais surgiu a cultura do cancelamento em que há o linchamento virtual de pessoas em nome de causas nobres e possui alcance exponencial. Assim como em Salém, o tribunal virtual julga e pune sem dar a oportunidade de defesa e destrói reputações. Entretanto, não apenas os vivos correm o risco de sofrer o ostracismo virtual, à exemplo da Princesa Isabel e do Cristóvão Colombo, personagens históricos também são cancelados. Dessa forma, as regras jurídicas são substituídas por um tribunal persecutório.
Primeiramente, o grande perigo do cancelamento é estar mascarado como uma maneira de defender uma causa nobre, o que dificulta a sua percepção negativa. Há um grande paradoxo entre o fim, o apoio a uma ideia justa, e o meio, a derrubada de reputações em um frenesi massivo sem direito à defesa. Por exemplo, a blogueira Gabriela Pugliesi foi cancelada por postar em sua rede social um vídeo de uma festa em sua casa em meio a pandemia atual de corona vírus. Houve uma série de ataques virtuais à jovem partindo de argumentos morais e do uso destrutivo de palavras, acarretando até na perda de contratos de trabalho. Por fim, ela teve que excluir suas redes sociais para minimizar os danos causados por seu impensado ato. Assim, percebe-se o quanto uma postura errada em meio à inquisição moderna pode causar danos à vida do acusado, até de forma financeira.
Ademais, por mais absurdo que pareça os mortos também são colocados na fogueira, na era digital criou-se a condenação retroativa sem prescrição possível dos pecados. A personagem histórica de grande fama Princesa Isabel, que assinou a carta de abolição da escravatura no Brasil, foi cancelada por supostamente “roubar o protagonismo” da luta contra a escravidão. Já Cristóvão Colombo foi cancelado nas redes por simbolizar o Colonialismo na América, e estátuas suas nos Estados Unidos foram atacadas. Entretanto, os juízes virtuais não consideram que estas figuras e eventos ocorreram em outras épocas e são frutos de outros contextos históricos.
Portanto, a cultura do cancelamento representa um perigo para a sociedade contemporânea pois se tornou uma forma de punição social baseada no moralismo e em fazer justiça com as próprias mãos. Assim, é necessária a conscientização da sociedade a partir da atuação de famosos, artistas e do governo federal com a propagação de campanhas em escolas e nas mídias, as quais devem educar sobre os males do ato de cancelar. Dessa forma, a disseminação do ódio a partir das redes será mitigada, e não retornaremos à era da “caça as bruxas”.