Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 22/08/2020
Em um dos episódios da série americana “Black Mirror” é retratada a “gamificação” da vida, na qual as pessoas são capazes de avaliar umas as outras por meio de um aplicativo. Ao longo da narrativa, percebe-se o cuidado que os indivíduos devem tomar a fim de não sofrerem um cancelamento virtual e serem excluídos do grupo social. Tal cenário citado parece refletir a realidade do século XXI, visto que é cada vez mais comum o debate acerca da cultura do cancelamento em rede. Sendo assim, torna-se bastante pertinente uma análise mais criteriosa acerca dos fatores que favorecem essa conjuntura: a busca pela superioridade e a falsa noção de justiça social.
Convém pontuar, de início, que tal problemática advém, em muito, da busca pela superioridade na sociedade contemporânea. Sobre isso, cabe destacar o pensamento do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, o qual afirma que o ato de cancelar outra pessoa no meio virtual favorece o sentimento de pureza daquele que praticou essa ação, uma vez que ele deseja sentir-se superior por não possuir a atitude do cancelado. Assim, inúmeras pessoas, sob uma perspectiva de que “O inferno são os outros”, como dito pelo personagem Garcin, na peça teatral “Entre quatro paredes”, buscam sempre apontar os erros alheios, em vez de analisar suas próprias atitudes ao “linchar” a outra pessoa virtualmente.
Outrossim, é imprescindível salientar como essa cultura do cancelamento é fomentada por uma falsa noção da prática de justiça social. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, ocorre, no mundo contemporâneo, a mercantilização das pessoas, pois percebe-se que essas se tornam meros objetos que podem ser facilmente cancelados quando uma atitude não é agradável ou correta do ponto de vista da comunidade digital. Dessa forma, os internautas, movidos por um sentimento de justiça social, praticam o linchamento virtual, o qual fomenta uma profunda cultura do ódio, na qual não há um espaço propício para o diálogo e a defesa daquele que está sendo julgado nas redes sociais, mas há, infelizmente, o julgamento de pessoas por atitudes praticadas de maneira isolada, e não pelo caráter.
É possível defender, portanto, a necessidade de medidas capazes de mitigar essa problemática. Logo, compete a mídia socialmente engajada a conscientização da população acerca dos prejuízos da cultura do cancelamento, por meio de narrativas ficcionais, como novelas, filmes e documentários, os quais devem, de forma pertinente e aprofundada, abordar a urgência do diálogo no que tange a atitudes ou falas de indivíduos consideradas erradas pela comunidade virtual, em vez do cancelamento total dessa pessoa, com o fito de favorecer um ambiente propício para a discussão civilizada de ideias e questionamentos. Somente assim, o cenário de Black Mirror estará restrito à ficção.