Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 22/08/2020
Na obra “Senhor das Moscas”, de William Golding, crianças naufragam em uma ilha e decidem instalar um sistema, a fim de manter a ordem no grupo: elas adotam a concha do mar como objeto de poder de fala nas reuniões. Assim como na ficção, a sociedade contemporânea desenvolve meios de comunicação capazes de amplificar a voz de indivíduos – fator sobre o qual foi criada a “cultura do cancelamento”. Entretanto, devido às proporções tomadas por essa nova cultura, faz-se necessário o debate acerca de seus objetivos e consequências.
A princípio, de maneira geral, a tecnologia foi criada com a finalidade de facilitar o mundo vivido pelo ser humano, segundo Jason Lanier, o inventor dos óculos de Realidade Virtual. Logo, criar maneiras de aumentar o poder de fala de indivíduos de grupos oprimidos, por exemplo, é um caminho previsível para esse tipo de evolução tecnológica, como acontece com a “cultura do cancelamento” – originada para que aqueles sem esse poder possam chamar atenção para justiça social e forçar ações políticas. Mas, apesar de ser uma boa causa, a liberdade trazida com essas tecnologias está ao alcance de todos com acesso à internet, ou seja, o uso dessa “concha moderna” fica a critério de cada indivíduo e pode ter seu objetivo original desvirtuado.
Além disso, o livro “Frankenstein”, de Mary Shelley, é um exemplo da falta de controle do criador sobre sua criação, isto é, os efeitos da “cultura do cancelamento” não estão limitados pela chama que o iniciou. Assim, por depender do livre arbítrio individual, somado à autonomia sobre conteúdo produzido, com anonimato, proporcionado pela internet, não há como deter as consequências do “cancelamento” online, apenas prevenir a amplitude dos impactos; e fatores como as “fake news” (ou “notícias falsas”) promovem resultados devastadores aos envolvidos e se opõem às razões que deram início a essa nova “cultura”. Logo, as informações que circulam pelas redes sociais devem ser produzidas e analisadas com cuidado, a fim de prevenir contra seus possíveis efeitos negativos.
Portanto, é dever do Estado junto com as instituições de ensino promover ações públicas que eduquem os cidadãos sobre os impactos do uso das redes sociais – como Twitter, Instagram, Facebook etc. –, por meio de campanhas e palestras, nas escolas e para a população, com a abordagem sobre ética e moral na internet, consequências da disseminação de informações e como usar essas ferramentas para garantir a cidadania e a democracia. Com isso, será possível diminuir os impactos negativos da “cultura do cancelamento” e criar bons hábitos acerca do uso das redes sociais – a concha do século XXI.