Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 22/08/2020

No século XVIII, durante o iluminismo, o filósofo Voltaire formulou a teoria da tripartição dos poderes. No entanto, a ascensão da cultura do cancelamento impede a observância desse princípio, uma vez que, não raro, muitas pessoas podem ser vítimas de notícias falsas, pois os que almejam que esse indivíduo seja cancelado podem usar arquivos com conteúdo fora de contexto para condenar a imagem do outro. Assim, é possível afirmar que, apesar de o país possuir setores responsáveis pelo julgamento dos cidadãos, alguns estão sendo julgados em ambiente virtual, muitas vezes sem a existência de provas. Nesse sentido, convém analisar as consequências desse fenômeno no tecido social brasileiro.

Em primeira análise, é importante ressaltar que essa problemática não atinge somente figuras públicas e ultrapassa as fronteiras das mídias sociais. De acordo com o site da BBC, enquanto caminhava, um homem americano fez um gesto com as mãos que foi confundido pelos observadores com um sinal gesticulado pelos adeptos do nazismo. Por conseguinte, após ser fotografado e ter a foto divulgada, seus empregadores tomaram conhecimento do episódio, o que resultou na sua demissão. À luz disso, fica evidente que pessoas comuns estão igualmente sujeitas a serem rejeitadas e que, além disso, os efeitos desse novo movimento não se restringem ao mundo online. Desse modo, é de suma importância que esse cenário seja alterado.

De outra parte, denota-se a ocorrência da utilização de publicações e arquivos antigos para tentar deslegitimar ações no presente. Conforme o filósofo empirista David Hume, a mente humana nasce sem ideias pré-concebidas e está em constante mudança. Assim, com base nessa lógica, é razoável afirmar que, embora haja a exposição de afirmações pejorativas contra certos grupos sociais, as crenças atuais não são necessariamente as mesmas. Logo, ratifica-se que muitos brasileiros, com o uso de palavras ditas no passado, são surpreendidos com ataques nas mídias sociais sem que os divulgadores não tenham dado a oportunidade de esclarecimento. Dessa forma, é imprescindível que mudanças sejam feitas nessa conjuntura.

Urge, portanto, que medidas cabíveis sejam tomadas para que o Brasil seja, de fato, uma nação em que os habitantes sejam julgados apenas pelo Poder Judiciário. Para isso, aliado aos canais midiáticos como a televisão, o Estado deve promover campanhas que contribuam para a erradicação dessa novidade virtual que tem se mostrado contraditória. A fim de estimular os interlocutores a evitarem injustiças, é preciso incentivar a denúncia de atos que aparentem mal intencionados para que seja feita a devida investigação e que possam ser punidos conforme a lei. Com essas ações, espera-se atenuação dos impasses citados.