Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

O Tribunal de Santo Ofício, institucionalizado pela Igreja Católica no século XIII, representou uma reação à ascensão dos hereges, indivíduos que questionavam os dogmas cristãos e eram condenados à morte nas fogueiras e ao linchamento por parte da população. De maneira análoga, no século XXI, observa-se a persistência dessa herança opressora sob a forma da cultura do cancelamento, a qual é responsável por julgar os internautas que cometem ações moralmente incorretas e condená-los à perda de sua reputação. Sob essa ótica, é primordial analisar os limites impostos à liberdade de expressão por esse fenômeno, bem como a sua relação com o exibicionismo virtual.

É imperioso salientar, a princípio, que o linchamento nas redes sociais é, majoritariamente, fundamentado no sentimento de justiça social contra internautas que expressam uma opinião opressora, como o preconceito e a homofobia, contra grupos minoritários. Tal fenômeno vai de encontro ao conceito de “Esclarecimento”, que foi postulado pelo filósofo Immanuel Kant e evidencia que os indivíduos devem desenvolver a sua autonomia crítica a partir da formação da opinião e do uso público da razão para atingirem o estado de maioridade. Dessa forma, o contraste existente entre a cultura do cancelamento e o pensamento de Kant reflete na consolidação da internet como um ambiente unilateral, ou seja, que não favorece os debates construtivos e pautados na educação dos usuários.

Ademais, infere-se que o exibicionismo virtual é oriundo da consolidação de um panorama de enaltecimento das imagens por parte dos internautas, que tentam constantemente se adequar aos padrões de comportamento construídos socialmente. Essa questão é ratificada pelo conceito de “Sociedade do Espetáculo”, o qual foi proposto pelo sociólogo Guy Debord e expõe que as relações interpessoais são marcadas pela valorização das aparências. Por conseguinte, os indivíduos, imersos nesse contexto de exibição, estão mais sujeitos a serem alvos do cancelamento se cometerem alguma ação julgada imoral pelos demais usuários. A exemplo disso, pode-se mencionar o caso da blogueira Gabriela Pugliesi, que foi cancelada após postar fotos de uma festa diante da pandemia de coronavírus.

Depreende-se, portanto, que a cultura do cancelamento torna a internet um ambiente desfavorável aos debates e é fomentada pela valorização exacerbada das aparências. Posto isso, com vistas a subverter esse paradigma opressor na esfera virtual, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de subsídios governamentais, campanhas que deverão ser expostas nas redes sociais. Essa medida deverá estimular os internautas a valorizarem os debates construtivos em detrimento do linchamento e a respeitarem a variada gama de opiniões existentes. Somente assim, poder-se-á tornar esse ambiente menos unilateral, desconstruindo a herança opressora deixada pelo Tribunal de Santo Ofício.