Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/08/2020

Em 2017, eclodiu nas redes sociais o Movimento #MeToo, que tinha como objetivo principal expor relatos de assédio sexual no âmbito do entretenimento. Nesse sentido, blindagens e cancelamentos se tornaram comuns entre alguns famosos no campo midiático. Entretanto, no Brasil, em pleno contexto hodierno, o debate a respeito da “cultura” do cancelamento tem se expandido de forma exponencial, visto que ao mesmo tempo que “puniu” atitudes errôneas, gerou julgamentos precipitados. Diante disso, é necessário estabelecer que o caráter alienado da sociedade contemporânea e a ausência de educação digital dos “cancelados” fazem com que tal manifestação seja perpétua e imperfeita.

A priori, é válido destacar que a escassez de criticidade dos indivíduos é um dos “antígenos” que implicam na disseminação descontrolada da cultura do cancelamento no país. Na obra “Raízes do Brasil”, do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, é apresentada a figura do “Homem cordial”, o qual faz referência ao fato do povo brasileiro julgar e tomar decisões se baseando na emoção ao invés da razão. Com isso, os cidadãos atribuem e “espalham” informações sem apurar a veracidade e os possíveis impactos que tais afirmações podem causar ao outro. Dessa maneira, a divulgação de boatos e, consequentemente, o cancelamento do grupo ou pessoa acarreta inúmeras consequências negativas, tais como: depressão, síndrome do pânico e até mesmo o suicídio.

Outrossim, existe outro “coeficiente” que multiplica o debate e os casos de repúdio social no território nacional. A carência de educação dos indivíduos no contexto de publicações de opiniões nas plataformas de socialização digital é um das drogas responsáveis por eclodir uma overdose de cancelamento na nação. Em março de 2019, o Governo Federal anunciou o bloqueio de cerca de 5,81 bilhões de reais na área da educação. Consoante isso, os baixos ou inexistentes investimentos nas práticas educacionais provocam um sucateamento no ensino digital nas escolas e universidades. Logo, com o déficit de conhecimento, os indivíduos tendem a realizarem postagens que comprometem os direitos humanos e integridade mental e comportamental de algumas minorias.

Em suma, medidas precisam ser tomadas para atenuar tais impasses. O Poder Legislativo deve, por intermédio do Ministério da Justiça, aprimorar leis que garantam a punição plena de pessoas que dissipam boatos falsos e não empáticos, a fim de que a cancelamento injusto seja combatido. Cabe também ao Ministério da Educação, por meio de decretos presidenciais, fornecer verbas específicas para o ramo da educação digital, com a finalidade de assegurar que os indivíduos postem conteúdo de forma segura. Dessa forma, a cultura do cancelamento será menos constante e a sociedade viverá melhor.