Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 24/08/2020

No episódio intitulado “Odiados pela nação” da distópica série “Black Mirror”, alguns personagens tiveram que lidar com ataques e ofensas em massa de estranhos, decorrentes de opiniões controversas que deram na Internet. Esse enredo ilustra uma tendência danosa acerca da cultura do cancelamento, a qual amplifica um discurso punitivo e potencialmente patológico.

Em primeiro lugar, a política do cancelamento tem como ferramenta o ataque à reputação de algo ou alguém objetivando à punição. Para isso, é necessário a mobilização de muitas pessoas com a finalidade de expor o indivíduo destoante. Nesse sentido, o filósofo Michel Foucault escreveu em sua obra “Vigiar e punir” a respeito da microfísica do poder. Para ele, o poder não está nos indivíduos, e sim na rede composta de saberes e no discurso. Com efeito, para ser eficiente, o cancelamento precisa ser amplamente compartilhado e produzir resultados desfavoráveis à pessoa denunciada, como a perda do emprego, de contratos, ou privação da liberdade resultante da hostilização.

Em segundo lugar, é importante frisar que a cultura do cancelamento revela um lado sombrio e patológico da sociedade. De acordo com Émile Durkheim, em todas as sociedades existem os fatos sociais, que são regras, condutas e atitudes comum a todos, e, os fatos sociais patológicos, que podem prejudicar a coesão social. Nesse sentido, o que indica que essa forma de justiçamento tem se tornado um problema na sociedade, é o fato de os indivíduos envolvidos nos linchamentos virtuais se isentarem de culpa e não apresentarem remorso. Pelo contrário, sentem-se confortáveis e protegidos pela coletividade. Assim, imbuídos pelo efeito manada, ajudam a humilhar pessoas nos tópicos do momento de forma  totalmente irresponsável.

Portanto, para que a liberdade de expressão não se torne discurso de ódio e mecanismos de opressão, as empresas como Facebook e Twitter devem ter responsabilidade social. Nesse sentido, podem desenvolver sistemas capazes de perguntar remotamente ao indivíduo porque está usando determinada “hashtag” muito popular, além de pedir uma confirmação se ele deseja realmente compartilhar determinado conteúdo. Dessa forma, levará o usuário à reflexão ao mesmo tempo que o deixa informado sobre suas responsabilidades. Somente assim, teremos uma sociedade mais preparada para lidar com as diferenças e mais consciente de que os erros cometidos “on line” não devem ser corrigidos com mais injustiças.