Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/08/2020

Em solução para os dilemas das relações estabelecidas nas redes sociais, parte da comunidade virtual encontrou na cultura do cancelamento uma forma de impor limites as manifestações nos sites de interação. Segundo esta, indivíduos que realizarem atos repreensíveis, ofensivos e preconceituosos, recebem uma onda de críticas e comentários, basicamente sendo alijados do convívio online. No entanto, esse fenômeno se apresenta como uma forma de justiça com as próprias mãos, sujeita a falhas, e um potencial mecanismo de censura a opiniões divergentes.

Primeiramente, como qualquer forma de justiça com as próprias mãos, o cancelamento virtual não possui métodos justos ou lógica consistente. Os objetivos do cancelamento são subjetivos, assim como as condições para este. Não há regras tanto para as formas de linchamento virtual quanto para os “delitos” que necessitam repreensão pública. A mesma comunidade que cancela o cantor MC Gui por postar um vídeo praticando bullying contra uma criança num transporte público, cancela também a cantora Anitta apenas por não se posicionar politicamente.

Consequentemente, devido ao caráter inconstante e subjetivo dessa condenação virtual, esse mecanismo pode ser, e já é, utilizado para censurar opiniões impopulares. Há uma diferença evidente entre crimes virtuais e visões de mundo divergentes. Sendo que estas são protegidas pelo direito à liberdade de expressão, assegurado pela constituição federal. O recente cancelamento da escritora J. K. Rowling, famosa pela autoria da saga mundialmente conhecida dos livros de Harry Potter, por exprimir análises pessoais sobre as diferenças nas lutas por inclusão de mulheres trans e cis, ilustra a imposição de determinados pensamentos através do linchamento virtual.

Desta maneira, para que as liberdades individuais não sejam feridas e para que a cultura do cancelamento não gere consequências trágicas, é importante que a população seja conscientizada da inconsistência desta. O ministério da comunicação, junto às mídias, incluindo as de propaganda virtual, deve investir em campanhas que informem sobre a natureza falha desse mecanismo de justiça e aconselhem os indivíduos a denunciarem por meios legais ou disponibilizados pelas próprias redes sociais qualquer comportamento condenável.