Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 21/08/2020
Cancelamento: combate ao politicamente incorreto ou simplesmente apatia?
Segundo Heráclito, filósofo pré-socrático: “Nada é permanente, salvo a mudança”. Naturalmente, ao analisar tal pensamento, pode-se concluir a importância das mudanças no campo das ideias e posicionamentos. No entanto, percebe-se que a exorbitância da cultura do cancelamento – atitudes virtuais que denunciam ações politicamente incorretas – tem privado algumas pessoas de seu direito de defesa e, principalmente, de retratação. Isso ocorre devido à intolerância e imediatismo dos ativistas, acrescidos da facilidade de propagação de informações em meios virtuais.
Primeiramente, vale ressaltar que embora tenham surgido com finalidade de dar voz às minorias e combater preconceitos, a rapidez com que as “campanhas de cancelamento” são difundidas, impossibilitam o diálogo com o “cancelado” e, portanto, não efetivam seu arrependimento por atitudes errôneas. Consoante a isso, um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) revela que falsas notícias se espalham 70% mais rapidamente que informações verídicas nas redes sociais. Tacitamente, ações visam cancelar um indivíduo podem se basear em fatos inverídicos ou informações incompletas e, mesmo assim, se espalhar de forma desenfreada e inconsequente.
Outrossim, com o advento da Terceira Revolução Industrial, o surgimento da internet e dos meios de comunicação virtual propiciou um cenário de bombardeio acelerado de informações, criando indivíduos cada vez mais desprovidos de empatia. Sobre isso o sociólogo Zygmunt Bauman afirma que na vida virtual tudo se torna mais fácil, mas perde-se a arte das relações sociais e da amizade. Tal afirmação evidencia a importância de se trabalhar a ideia de que todos que erram estão sujeitos à reparação de seus erros a partir de discursos e reflexões, escolhendo a permanente mudança, de forma análoga à fala de Heráclito.
Infere-se, portanto, que a cultura do cancelamento fere o bom funcionamento de uma sociedade. Logo, cabe ao Ministério do Desenvolvimento Social, junto às plataformas digitais, promover campanhas de combate à problemática. Isso poderia ser realizado por meio de anúncios informativos nas redes sociais – principais meios onde ocorrem as campanhas – e a criação de grupos de debates em ambiente virtual, visando conscientizar os usuários da internet sobre as práticas adequadas para o combate de preconceitos e da violência virtual simultaneamente. Dessa forma, garante-se uma nação democrática e justa.