Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 19/08/2020

No livro 1984, de George Orwell, é representada uma sociedade distópica, na qual os governantes se utilizam da destruição de registros históricos, com o objetivo de censurar e manipular a população de modo que possam exercer poder absoluto. Da mesma maneira, a cultura do cancelamento se configura como modo de censura e restrição às opiniões emitidas nas redes sociais e, ainda que seja a representação das vozes das minorias, perde sua funcionalidade quando se torna banal, uma vez que essa cultura se mostra praticada por grande parte dos usuários das mídias sociais.

A priori, é fulcral destacar o poder coibidor de opiniões que é representado por essa cultura. Sendo assim, de acordo com o sociólogo Émile Durkheim, os fatos sociais são coercitivos e, portanto, são apresentados de tal forma que a população tende a condenar e punir aqueles que praticaram algo que é julgado como errado. De tal maneira, a punição hodierna e virtual se encontra no que é chamado ‘‘cancelamento’’, tendo em vista que este se baseia em uma espécie de tribunal virtual, no qual todos podem emitir opiniões de forma rápida e sem debates, corroborando para um estreitamento do pensamento dos indivíduos e, consequentemente, um grande medo gerado nos usuários no que tange a emitir quaisquer opiniões virtualmente.

A posteriori, é imperativo citar a banalidade dos discursos de ódio e da cultura do cancelamento como principal catalisadora para que o movimento perca sua eficiência nas punições. Desta forma, segundo a filósofa Hannah Arendt, toda forma de prática considerada maléfica tende a ser banalizada e, por conseguinte, perde seu caráter crítico e sua eficácia, visto que é praticada por muitas pessoas. Assim sendo, as práticas de punição virtual perdem sua importância no que diz respeito ao combate de ideais discriminatórios nas mídias, principalmente em redes sociais como o Twitter, na qual tem-se 27 milhões de usuários no Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo site Resultados Digitais. Logo, as amplas discussões e cancelamentos constantes contribuem para que essa prática se torne exagerada e perca seu efeito emponderador das minorias.

Em síntese, a cultura do cancelamento deve ser questão de debates e diálogos, a fim de serem explicitados seus malefícios e contribuir para o emponderamento das minorias. Isto posto, é de vital importância a ação do Ministério da Educação, em consonância com o Ministério dos Direitos Humanos, por meio de políticas de inclusão das minorias sociais e campanhas de conscientização sobre a cultura do cancelamento e suas práticas coercitivas, contribuindo para aprimoramento desse tribunal virtual. Só assim, ter-se-á uma sociedade distante da ficção de George Orwell, sem estreitamentos na educação e, consequentemente, uma melhor conjuntura social.