Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?
Enviada em 01/12/2020
Por muito tempo a ideia de que no Brasil havia uma democracia racial perdurou e foi bastante aceita pela sociedade. No entanto, essa visão foi desmistificada, o que deu oportunidade para que a inserção efetiva de pessoas negras fosse colocada em prática, por meio de políticas públicas, como o sistema de cotas. Esse programa favorece a inclusão e possibilita uma gama de maiores oportunidades à esses indivíduos, uma vez que a discriminação implícita está intrinsecamente relacionada à exclusão desses povos.
É relevante salientar, primeiramente, que o racismo encoberto intensificou expressivamente o afastamento da população preta, comprometendo, assim, até os dias atuais, sua inserção integral na sociedade. Nesse sentido, o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes afirma que enquanto o Brasil não superar o racismo institucionalizado, que possui profundas raízes com a escravidão, a democracia não será uma realidade brasileira. Isso posto, verifica-se que um país que não assume seu histórico de violações, não reconhece, portanto, a necessidade de atuar em prol da defesa dos direitos dessas populações de forma objetiva.
Nessa perspectiva, é muito presente no imaginário popular a equivocada compreensão de que apenas o outro é racista, não há um reconhecimento coletivo de que diariamente ações discriminatórias são reproduzidas. Acerca disso, um estudo da Universidade de São Paulo (USP), de 2010, revela que grande parte dos entrevistados afirmavam já terem presenciado algum episódio racista, porém apenas uma ínfima parcela admitia ter sido preconceituoso em algum momento da vida. Sob tal ótica, reforça-se o entendimento de que o Brasil é um país racista, embora não se reconheça como tal, ou seja, a discriminação racial é moralmente inaceitável, mas socialmente exercida nas mais diversas esferas da vida pública e privada.
Em suma, medidas são necessárias para que as universidades brasileiras sejam mais inclusivas. Logo, o Ministério da Educação deve intensificar a implementação de medidas de longo prazo no melhoramento do ensino público fundamental, haja vista que tais desenvolvimentos diminuirão as desigualdades e a privação de pessoas negras da inserção no ensino superior, com vistas a promover o acesso igualitário à educação no país. Ademais, cabe ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos a realização de campanhas de esclarecimento quanto ao propósito das cotas universitárias, por meio das redes sociais, a fim de que o corpo social entenda que esse programa é de suma importância para a formação de um país democrático. Assim, será possível que o mito da democracia racial seja rompido definitivamente e o Brasil progrida rumo a uma sociedade mais igualitária.