Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 30/11/2020

Em 1960, ocorreu um dos episódios mais chocantes e sangrentos da história, o massacre de Sharperville, em que dezenas de negros que protestavam contra as desigualdades do Apartheid foram mortos pela força de Estado. Anos depois, é fato que a luta por igualdade, tanto racial como social, é atemporal: afrodescendentes e cidadãos de baixa renda ainda enfrentam problemas para conquistar oportunidades na sociedade. Assim, cabe avaliar como fatores históricos e econômicos interferem no problema e como medidas afirmativas, como as cotas universitárias, melhoram tal cenário.

Previamente, é preciso analisar como acontecimentos histórico-sociais dificultam o acesso da população negra a um ensino superior de qualidade. Consoante à poetiza Cora Coralina, é preciso mais esperança em nossos passos do que tristeza em nossos ombros. Nesse âmbito, tal lógica mostra-se verídica: os cidadãos negros carregam o peso de um passado de escravidão e segregação que culminou na marginalização de parte dessa população e na disparidade em relação à igualdade e ao acesso à oportunidades de estudo. Desse modo, a criação de cotas universitárias gera esperança ao povo negro, uma vez que garante o maior acesso desse público às universidades, e assim ameniza as tristezas de outrora, tal como dito por Cora.

Ademais, a discrepância de realidade entre ricos e pobres é outro fator que impede o alcance democrático às faculdades. Nesse sentido, o filme “Que horas ela volta?” abordou a história de Jessica, filha de uma empregada doméstica, que presta o vestibular junto com o filho dos patrões de sua mãe, Fabinho, estudante de um dos melhores colégios do país. Analogamente, a vida de inúmeros jovens é marcada pela diferença de classes. Com uma educação pública defasada e acesso escasso a recursos de estudos, os alunos de baixa renda nem sempre podem cursar o ensino superior. Assim, a criação de cotas objetiva igualar as oportunidades e garantir o acesso dos mais pobres às universidades.

Isso posto, torna-se necessário um debate a nível nacional sobre o tema. É cabível ao Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Cidadania, resolver a problemática. Para isso, a criação de políticas que equiparem o número de brancos, negros, indígenas, ricos e pobres com acesso ao ensino superior, através de cotas raciais e sociais em universidades públicas e também em instituições privadas, a fim de estabelecer uma educação mais justa é fundamental. Além disso, a beneficiação monetária de instituições particulares que garantam parte de suas vagas ao sistema de cotas, a fim de estimular tal gesto é de extrema importância. Somente assim, será possível alcançar uma educação mais equitativa e mais esperançosa, superar as tristezas de um passado segregacionista, tal como dito por Cora, e evitar que realidades como as de Jessica e de Sharperville se repitam no Brasil.