Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?
Enviada em 29/10/2020
É notório que, de acordo com a jornalista e escritora Eliane Brum, a sociedade atual vive “exausta e correndo e dopada”. Nesse viés, observa-se a falta de tempo dos pais para o controle do uso da tecnologia por seus filhos. Tal realidade é calamitosa, pois, apesar de muitos acharem ser invasão de privacidade, os pais estão apenas prevenindo seus filhos de situações nefastas. Logo, essa situação deve ser analisada e solucionada.
É válido ressaltar, a princípio, como a dinâmica da sociedade contemporânea influi nos entraves para a efetividade do controle parental quanto ao uso de tecnologia. Nesse sentido, é relevante discutir sobre os fatores desencadeadores da população que vive “exausta e correndo e dopada”. De forma análoga à ideia proposta por Brum, o sociólogo Chul Han examina a sociedade do desempenho, cuja característica é a excessiva cobrança por melhores resultados. Diante disso, há o desenvolvimento de “workaholics” em busca de ascensão social, conforme Eliane. Desse modo, com a maior parte do tempo dedicada ao trabalho, os pais não possuem tempo suficiente para monitorarem seus filhos, efetivamente, no meio cibernético. Com efeito, essas crianças ficam vulneráveis a ameaças de jogos incentivadores de suicídio, por exemplo, o “Baleia Azul”, o qual se vale da inocência do público infantil para captar informações e induzi-lo a comportamentos que culminam na própria morte.
Ademais, nota-se a normalização da ausência de monitoramento dos pais em relação ao uso da tecnologia pelos filhos, na medida em que este é, muitas vezes, considerado invasão de privacidade. Por conseguinte, as crianças imersas no mundo digital sem filtros estão expostas a riscos, como pedófilos e sequestradores, os quais se passam, inicialmente, por pessoas sem más intenções na rede. Diante disso, convém evidenciar que essa situação é problemática, pois, ao banalizar o caos social da ausência do controle parental acerca da utilização da tecnologia, perpetua-se a exposição dos menores aos perigos em meio à Internet. Dessa maneira, a falta de prevenção, vista como algo corriqueiro e cotidiano, torna-se o pior mal, consoante Hannah Arendt. De fato, é de suma importância que os responsáveis sejam cientes das atividades de sua prole, já que visam à proteção dela.
É necessário, portanto, que o MEC, em parceria às plataformas de “streaming”, promova campanhas educativas para reverter tal mazela. Essa ação será realizada por meio de palestras, no meio físico e no cibernético, com psicólogos e estudantes de Psicologia da rede pública, os quais irão debater sobre a importância do controle parental quanto ao uso da tecnologia. Tal conduta terá como intuito promover a criticidade da população e minimizar os efeitos negativos da sociedade do cansaço e do pior mal.