Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 01/07/2021
O livro “1984”, de George Orwell, retrata uma sociedade manipulada pela alteração de documentos que podem ser comprometedores para o “Grande Irmão”. Nesse sentido, assim como na obra, em que o Partido estabelece dogmas falsos nos quais os cidadãos são levados a acreditar, percebe-se que a espetacularização da violência pela mídia apresenta nuances de notícias equivocadas. Diante disso, cabe analisar as consequências desse entrave, a saber, banalização da violência pelo tecido social, bem como a deturpação da verdade, a fim de elaborar meios que, de fato, solucionem essa problemática.
Com efeito, percebe-se que os instrumentos de comunicação influem na vida cotidiana dos indivíduos, posto que consolidam a transmissão de notícias que são basilares no decurso da formação da perspectiva individual e, no entanto, o extremismo destinado aos fatos acaba por alienar esse processo. Essa questão pode ser explicada, sobretudo, porque, ao banalizar a violência, a sociedade naturaliza tal aspecto, o que reflete, de igual forma, no comportamento individual. Nesse ínterim, ao tomar como base a ótica do jornalista José Arbex, para quem o fenômeno de “Auschwitz do pensamento” revela como a mídia brasileira é capaz de disciplinar a visão e a conduta das pessoas, é notório que a propagação de notícias extremas de violência reverbera-se em uma sociedade permeada pela visão míope de que essa se trata de algo trivial.
Outrossim, os telejornais - mecanismos acessíveis pela maior parte da população e protagonistas no levantamento e divulgação dos fatos - têm sido, em sua maioria, utilizados sob um viés mercadológico, o que compromete a integridade dos acontecimentos. Tal aspecto ocorre devido parte do meio jornalístico criar um cenário sensacionalista, distante do tratamento adequado para com a barbárie - que ocorre no plano da realidade - e em detrimento de objetivar a verossimilhança, com o intuito de adquirir a maior audiência possível. Desse modo, partindo do pensamento do escritor Guy Debord, o qual salienta que uma “Sociedade do Espetáculo” é baseada em relações imagéticas e essas são intimamente ligadas ao público e a mercadoria, observa-se que das relações sociais a notícia há uma fixação pela atenção do público a partir do lucro adquirido.
Portanto, para resolver o impasse, cabe ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações fiscalizar, principalmente os telejornais, por meio de notificações destinadas às emissoras, em que serão indicados os limites da transmissão dos fatos e o que é passível de ser apresentado - como a supressão de imagens fortes. Tal ação terá como finalidade zelar pela integridade da notícia e estabelecer balizas que garantam a segurança das pessoas noticiadas. Assim, os telejornais brasileiros irão transmitir informações que retratam o real, diferente do contexto de “1984”.