Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 20/05/2021

O filme “O Abutre”, de 2014, mostra o universo dos cinegrafistas que realizam apenas a cobertura de casos especialmente sangrentos para telejornais. A mídia, durante todo o enredo, utiliza-se da violência diária de Los Angeles para obter pauta e audiência nos programas. A realidade brasileira não se difere da apresentada nos cinemas. A espetacularização de atos violentos por todo o país ganham manchetes sensacionalistas todos os dias. No entanto, este fenômeno é capaz de gerar consequências graves na forma da população se relacionar com o cenário social hodierno.

Em primeira instância, é válido citar a influência da mídia em todos os aspectos da vida do ser humano. A imprensa possui o papel de transmitir informações e, em consequência, acabam por deter o poder de manipulação e alienação. Desta forma, quando há a exposição exagerada e diária de casos de violência, a sociedade tende a normalizar esses atos. Hannah Arendt, filósofa judia, desenvolveu o conceito de banalização do mal, em que os indivíduos tendem a não refletir sobre os próprios atos de modo a promover a crueldade. Por influência dos meios de comunicação, a agressividade torna-se a resposta padrão das pessoas nas relações socias visto que, devido a selvageria sempre presente nas manchetes, o medo assume o controle das ações humanas.

No contexto citado anteriormente, o sentimento de medo tem o papel principal. Além da exposição exagerada de atos violentos, a descrença no sistema público tanto de segurança quanto de justiça assombram o cotidiano da população. Segundo a Contituição Federal de 1988, é um dever do Estado garantir a segurança dos cidadãos. Entretanto, de acordo com o G1, em 2020 houve um aumento de 5% no número de homicídios em relação a 2019 no Brasil. Desta forma, esse aumento juntamente com a sua espetacularização nos jornais de todo o país criam um cenário de incertezas e com a sensação de impunidade, o qual gera um fenômeno social de buscar justiça com as próprias mãos através de práticas violentas como linchamentos e espancamentos.

Fica evidente, portanto, o quão prejudicial pode ser para as relações humanas o uso da violência na busca da audiência. A fim de atenuar as consequências desta situação, é necessário que o Ministério da Comunicação crie uma secretaria responsável por fiscalizar casos de sensacionalismo frequentes nas mídias, além de promover alertas antes do início de programas que exibam conteúdos sensíveis e violentos, especialmente em horários diurnos. Ademais, o Ministério da Justiça e Segurança deve incentivar a população, quando presenciar um crime, a denunciar às autoridades através de campanhas publicitárias que também sirvam para construir um sentimento de confiança nos orgãos públicos.