Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 27/03/2021
Emile Durkheim, sociólogo francês, afirmou que a sociedade funciona como um corpo biológico, o qual, para ser igualitário e coeso, necessita do pleno funcionamento das partes que o compõem. Visto isso, a espetacularização da violência pela mídia brasileira tem contribuído para que esse corpo esteja enfermo. Sendo a banalização e o uso do sofrimento alheio como entretenimento, além de possíveis situações irreversíveis que são geradas em detrimento de informações apuradas erroneamente ou noticiadas com sensacionalismo, as principais consequências dessa problemática.
Em primeira análise, o uso da tragédia para fins midiáticos não é exclusivo à modernidade. Comprovadamente a isso, sob a perspectiva de Hanna Arendt, a incapacidade humana de refletir sobre os próprios atos promove a crueldade. Tanto é que, desde as violentas batalhas entre gladiadores na Roma Antiga as quais despertavam o interesse daquela população, até o livro “Suzane - assassina e manipuladora” do autor Ulisses Campbel, em que é retratado o assassinato dos pais pela própria filha e que foi amplamente vendido e comentado, demonstram o inerente interesse humano pela calamidade e como isso é explorado e inflamado pela mídia. O que ratifica o pensamento da filósofa.
Ademais, a ausência de conhecimento técnico por parte da imprensa para lidar com situações inóspitas, bem como o exagero adotado por algumas emissoras de televisão acabam por prejudicar a ação policial e dos órgãos de justiça. A exemplo disso, tem-se o caso Eloá, que foi sequestrada e, posteriormente, assassinada por seu ex-namorado, tendo a mídia transmitido o crime de forma simultânea e interferido nas negociações. O que, segundo o psiquiatra Guido Palomba, contribuiu para o trágico desfecho da adolescente. O que explícita a busca incessante e inescrupulosa por audiência, mesmo que o preço disso seja a vida de alguém e o sofrimento dos seus entes.
Diante do exposto, fica clara a necessidade de mitigar os óbices descritos. Portanto, cabe à Federação Nacional dos Jornalistas, que é engajada na regulamentação da classe jornalística, em parceria com os principais consórcios de imprensa, elaborar uma regulamentação que restrinja esse tipo de prática, de forma que não fira a liberdade de imprensa assegurada pela Constituição, mas que tenha empatia e respeito como preceitos à prática do jornalismo, a fim de que o papel essencial de informar a população não seja deturpado devido à má conduta de uma minoria. Dessa forma, com a aplicação e êxito de tal medida, o corpo social proposto por Durkheim poderá, então, reequilibrar-se.