Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 02/03/2020

O circo da mídia brasileira

Durante o período de miséria nas cidades da Roma Antiga, o Estado adotou a denominada “política do Pão e Circo”. Tal política consistia, resumidamente, em fornecer aos cidadãos alimento e entretenimento, e este consistia na apresentação das conhecidas lutas de gladiadores. Essa situação de uso da violência como a atração de um espetáculo assemelha-se ao que ocorre na mídia brasileira contemporânea. As tragédias mais violentas são exibidas ao público com o intuito de gerar comoção e entretenimento. Evidentemente, a transformação da violência em espetáculo afeta diretamente o  funcionamento da mídia no Brasil.

O sensacionalismo é comum em vários meios de propagação de notícias. Entretanto, o jornalismo costumava ater-se à transmissão de informações realistas, sem moldar ou alterar os fatos a serem exibidos. Com a violência prometendo ser um chamativo meio de entretenimento, o jornalismo brasileiro passou a diminuir a fronteira que existia entre o jornalismo realista e o sensacionalista. As notícias que abordam assassinatos, agressões e outros crimes recebem um espaço maior nas notícias diárias, além de um aumento ou ênfase nos aspectos mais chocantes, a fim de entreter os espectadores.

Nesse contexto, a valorização das informações mais emocionantes gera, comumente, um esforço absurdo por parte da mídia para obter tais informações. Vítimas e outras pessoas envolvidas em tragédias violentas são perseguidas por câmeras em busca de detalhes sobre o ocorrido, sendo colocadas em situações visivelmente desconfortáveis.

Para evitar o agravamento dessas consequências, é essencial que a linha que divide a mídia realista e a mídia sensacionalista continue a existir. Além disso, a violência deve ser exibida junto aos meios de combatê-la. Se a mídia brasileira se tornar um palco para espetáculos violentos a fim de entreter o público, um futuro menos violento para o país será pouco provável de ser alcançado.