Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 29/02/2020
Em 2008, a mídia brasileira explorou exaustivamente o caso de Eloá Cristina, adolescente que foi sequestrada e morta pelo então namorado Lindemberg Alves. Nesse episódio, todas as emissoras cobriram o sequestro de forma espetacularizada, interferindo inclusive nas negociações do criminoso com a polícia. Dentro desse espectro, casos como esse são comuns na cobertura jornalística, a qual, em busca de audiência, propaga discursos sensacionalistas que, ao invés de informar, trazem consequências como perda da credibilidade e disseminação de mais insegurança.
A princípio, é necessário destacar que, ao priorizar as emoções em detrimento da informação, a ética jornalística é corrompida. Sob essa ótica, o filósofo Zygmunt Baumann afirma que esse processo é típico da pós-modernidade, na qual as emoções valem mais que a apuração e divulgação de informações imparciais. Dessa forma, quando os veículos midiáticos espetacularizam a violência, cobrindo os fatos de maneira exagerada, quebram-se os princípios do jornalismo e perde-se a credibilidade da imprensa. Depreende-se, então, que é preciso uma reformulação do fazer jornalístico, no qual seja resgatado o objetivo primordial de informar de maneira clara e objetiva e não prevaleçam apenas os interesses mercadológicos pautados pela audiência.
Somado a isso, os discursos sensacionalistas, proferidos principalmente por programas que cobrem a violência nas grandes cidades, manipulam a opinião pública e disseminam maior sensação de insegurança. Nesse sentido, o linguista Noam Chomsky aponta que, ao manipular as informações, a mídia corrompe e enfraquece a opinião pública. Com efeito, a manipulação acontece quando a cobertura foca em detalhes exagerados dos crimes, explorando a violência e, com isso, desperta indignação, revolta e principalmente sensação de risco permanente dos telespectadores. Por conseguinte, ela deixa de ocupar um lugar de referência, na qual impera a veracidade e a confiabilidade dos fatos, para um lugar de demagoga, cuja espetacularização vende a ideia de insegurança generalizada e caos urbano.
Fica claro, portanto, que as consequências de tal abordagem deturpada pela mídia são nocivas para a sociedade. Por conta disso, a Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações - deve criar uma “Cartilha Semiótica Televisiva”. Isso pode ser feito por meio de formação de um conselho de jornalistas, os quais elaborarão um conjunto de práticas a serem abolidas da cobertura de matérias sobre violência, eliminando termos e enfoques que espetacularizem os fatos, com vistas a deixar os discursos mais informativos e menos sensacionalistas. Assim, a ética jornalística sobressairá e coberturas inadequadas como a do caso Eloá não farão parte da televisão brasileira.