Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 22/10/2021

Sabe-se que a mídia brasileira é considerada o 4° poder no país devido à sua influência social e força de formação da opinião pública. Sob esse viés, é importante ressaltar a responsabilidade da mídia na incitação ao ódio e à violência e como isso não é punido devidamente. Além disso, fica nítido como a prática da justiça com as próprias mãos é encorajada em resposta à ineficiência do Estado em áreas como a segurança pública e na questão da frágil e falha justiça brasileira. Destarte, urge que o poder público fiscalize com mais rigor a incitação ao crime promovido por alguns veículos de imprensa e atue na raiz do problema: a criminalidade que desperta a impotência humana.

Em primeira análise, observa-se que muitos comunicadores não têm noção da responsabilidade de uma declaração dada em cadeia nacional. Sob esse prisma, em meados de 2014, a jornalista Rachel Sheherazade, no noticiário que era âncora à época, o SBT Brasil, ao comentar o caso de um jovem que foi acorrentado a um poste por populares que o viram furtando, declarou que os defensores dos direitos humanos, caso tivessem pena do jovem em questão, deveriam “adotar um bandido”. Nesse contexto, é imprescindível analisar como falas iguais às de Rachel podem dar força a justiceiros sociais e levar ao caos social e à injustiça. Dessa forma, é importante debater o limite entre opinião e crime de ódio, cabendo ao poder público medidas judiciais para evitar incitações como essa em rede nacional.

Outrossim, é importante entender o porquê de a mídia incitar a violência e a justiça com as próprias mãos. “A violência é uma questão de poder. As pessoas se tornam violentas quando se sentem impotentes”. Nesse sentido, a frase do produtor americano Andrew Scheneider pode representar como a impotência do indivíduo frente às injustiças do dia a dia pode levar o ser humano a se tornar violento e arbitrário quando em postos de poder, como na mídia tradicional. Nesse contexto, a ineficiência do Estado na segurança pública e nas punições de crimes execráveis pela população promove revolta e empodera falas mais duras na mídia, que acabam ganhando força na opinião pública. Dessa maneira, o poder público deve investir em segurança pública e justiça para acabar com essa impotência popular.

Diante do exposto, é necessário, portanto, que o Ministério das Comunicações fiscalize falas que possam incitar a violência e o caos social nas mídias tradicionais, por intermédio de canais de denúncia para os telespectadores, mas sem ferir o princípio da liberdade de expressão, com vistas a desencorajar os justiceiros sociais. Para isso, os telespectadores seriam colaboradores do poder público. Ademais, é fulcral que o Ministério da Justiça e Segurança Pública atue na garantia da justiça, da paz e da ordem, por meio do cumprimento da Constituição e investimento ostensivo em segurança. Assim, o sentimento de impotência da população será sanado e a mídia não incitará a violência e os justiceiros sociais.