Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 24/02/2021
O episódio chamado White Bear, da série Black Mirror, questiona a cultura do punitivismo, narrando a história de uma mulher que comete um crime e, por consequência, sofre torturas psicológicas e físicas, enquanto os habitantes de sua cidade são a plateia do “espetáculo”, que é transmitido virtualmente. Assim, é feita uma reflexão sobre como a busca por justiça se confunde com a sede de vingança, além de uma análise sobre relação entre a mídia e a violência, união que representa uma grave ameaça, principalmente com o crescimento do sensacionalismo - ato de noticiar fatos de forma escandalosa para causar mais impacto - e da disseminação dos discursos de ódio nas redes sociais.
A priori, destaca-se o papel dos programas de jornalismo policial com a construção da imagem do “bandido”: a adjetivação de cunho ofensivo ao caracterizar algum criminoso, juntamente ao posicionamento completamente parcial dos apresentadores em favor dos policiais, aumenta a indignação dos espectadores, gerando o impulso de fazer justiça com as próprias mãos. Dessa forma, casos como o do menino carioca, acusado de furto, que foi espancado e amarrado ao poste por “justiceiros” em 2014 recebem aval tanto desses jornalistas quanto dos policiais, fazendo o pensamento de que “bandido bom é bandido morto” ganhar força entre o povo e a violência ser espetacularizada.
Ao mesmo tempo, as redes sociais têm alta capacidade de moldar o comportamento humano negativamente, já que uma variedade de ideias persuasivas e tendenciosas circulam quase sem controle, então o indivíduo pode se deparar com notícias falsas e destilação de ódio e ser manipulado, absorvendo esse pensamento. Ademais, na internet, por conta da sensação de anonimato, as pessoas sentem maior liberdade para manifestar sua raiva, ameaçar, julgar e criar polêmicas, nutrindo o ódio dentro de si e representando riscos para o coletivo, já que as tais ameaças e os discursos agressivos podem sair das telas e virar realidade.
Portanto, o Ministério da Educação, buscando reverter essa situação, deve promover campanhas educativas que informem sobre como otimizar o uso das plataformas digitais, conscientizando a população e prevenindo vulnerabilidades, de forma que o indivíduo aprenda a evitar as influências nocivas da internet. Além disso, a imprensa, como mediadora do conhecimento, tem de fortalecer seu compromisso com a verdade, a justiça e a imparcialidade, fiscalizando, por meio de denúncias dos próprios consumidores, os seus veículos de informação. Assim, a mídia não mais será encarada como “vilã” nessa questão, mas como uma aliada no combate à violência.