Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 01/06/2020

De acordo com o filósofo Thomas Hobbes, em seu livro “Leviatã’, “O homem é o lobo do homem”, fazendo referência à necessidade da mediação do Estado entre os indivíduos, com o fito de manter a paz. Contudo, frequentemente a população se mobiliza para “fazer justiça com as próprias mãos”, influenciada pelo jornalismo antiético e a normalização do ato de vigar-se no meio cultural.

A imprensa possui um papel fundamental de fornecer conhecimentos atuais aos cidadãos. Entretanto, ela por vezes assume o tom sensacionalista, pois reportagens mais “chocantes” propiciam maior audiência. Além disso, algumas emissoras permitem que seus apresentadores sejam parciais e incitem atos de linchamento, após a veiculação de notícias que geram sentimento de revolta. Por conseguinte, àqueles que criticam os atos criminosos se sentem superiores e com o direito de agir. Como exemplo, o caso em que um jovem, após tentar furtar uma bicicleta, teve sua testa tatuada, ação justificada pelos agressores como punição. Portanto, é fato que a mídia possui um grande poder de influência, que deve vir acompanhada de responsabilidade.

Outrossim, séries, filmes e outras obras podem normalizar a vingança, de forma a torná-la socialmente aceitável. Em “Avenida Brasil”, novela de sucesso internacional, a trama baseia-se principalmente na relação entre Nina e Carminha, personagens que procuram a todo custo revidar acontecimentos sofridos. Ademais, é conforme a cultura que o ser humano se espelha, como exemplifica o pensador Jean-Jacques Rousseau ao afirmar que o homem é produto de sua vivência. Assim, é preciso ser prudente ao propagar valores na mídia, pois eles refletirão na coletividade.

Em suma, conclui-se que são inaceitáveis comportamentos como os dos tatuadores mencionados, nos quais desrespeita-se os direitos humanos com a prerrogativa de estar agindo para a “reparação”. Logo, são essenciais medidas para combater a incitação da violência pela mídia, sendo dever do Estado garantir que os Direitos Humanos sejam respeitados nos noticiários, o que é possibilitado pela reformulação das leis, as quais devem estabelecer multas de acordo com a gravidade da situação, com o intuito de promover reportagens éticas. Por fim, a Secretaria da Cultura pode realizar campanhas nas redes sociais, reafirmando que certos assuntos da ficção precisam permanecer nela, com o propósito de evitar a normalização de relações como aquelas vistas no entretenimento.