Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 16/05/2020

Na animação japonesa Death Note, o protagonista Kira visa realizar o próprio julgamento, já que ele acredita que a polícia e o judiciário do Japão incompetentes. Embora seja uma obra de ficção, tal série evidencia a problemática da violência com as próprias mãos, presente na sociedade hodierna e incitada, sobretudo, pela mídia. Isso se deve, principalmente, à ineficiência do Governo em combater a violência urbana e à naturalização da violência pública por parcela da Imprensa.

Nesse âmbito, consoante o filósofo Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que o equilíbrio social seja atingido. Isso posto, evidencia-se que, ao não combater a impunidade de criminosos no País e ao não garantir a segurança da população nas cidades, o Estado desconstrói essa harmonia. Consequentemente, na ausência de ação estatal, diversos setores da Mídia fomentam a prática da justiça com as próprias mãos, por via de reportagens e de programas policiais sensacionalistas, ao abordar de forma exacerbada casos em que a justiça não foi efetiva. Desse modo, a máxima “O homem é lobo do homem” do pensador Thomas Hobbes é corroborada, uma vez que muitos indivíduos utilizarão da violência para conseguir a segurança do corpo social.

Ademais, é indubitável que a Imprensa colabora para o agravamento dessa problemática. Por esse viés, segundo o filósofo Adolfo Vázquez, o aumento da frequência de um fenômeno social ocasionará sua normalização. Nesse sentido, percebe-se que parte da Imprensa naturaliza casos de linchamento ou de violência pública, com o uso de jargões como “bandido bom é bandido morto” ou com a justificativa que justiça do povo. Também, super heróis que fazem a própria justiça, como o Batman e o Justiceiro, são amplamente difundidos pelos meios de comunicação e tratados como ícones a serem seguidos e idolatrados.

Logo, é de fulcral relevância o combate a essa problemática. Desse modo, assiste ao Governo, em parceria com o Ministério da Segurança Pública, combater a impunidade no corpo social, por meio de mais investimentos nas organizações policiais do País e maior divulgação das atuações dessas instituições, com o fito de desconstruir o sentimento de ausência estatal e, em consequência disso, desencorajar a justiça própria. Igualmente, cabe à Imprensa, em conjunto com jornais independentes, desconstruir a naturalização dos linchamentos e violência pela população, por meio de campanhas de conscientizarão na televisão e nas redes sociais e por meio de debates sobre a temática com jornalistas e sociólogos, com o fito de assegurar que tal prática não seja incitada. Assim, será possível combater o incentivo a violência e a justiça com as próprias mãos e evitar que a Mídia influencie o surgimento de “Kiras, Batmans e Justiceiros”.