Combate ao assédio moral no trabalho
Enviada em 26/08/2021
Hannah Arendt - expoente filósofa - denunciou a maior fraqueza do homem: a banalidade de atitudes malévolas. Nesse caso, percebe-se, infelizmente, que o fenômeno de Arendt não se encontra apenas no plano teórico, já que o assédio moral turge o bem-estar dos trabalhadores no mundo. Logo, para que esse problema global seja combatido, é de suma importância analisar as causas e as consequências dessa realidade: a origem histórica do trabalho fabril e a perpetuação de ciclos viciosos de opressão.
De início, a gênese das fábricas foi marcada pela Revolução Industrial, que, desde o século XVIII, promove a degradação dos operários e a supervalorização do lucro. Acerca disso, é nítido que os resquícios comportamentais da década de 1700 se mostram presentes nas relações hodiernas de trabalho e se manifestam na forma de assédio moral, haja vista que os funcionários são associados a engrenagens de uma indústria ao invés de serem vistos como integrantes orgânicos de um todo. Dessa forma, enquanto a objetificação humana se mantiver como regra no âmbito laboral, homens e mulheres permanecerão a conviver com a maldade de Arendt.
Ademais, Paulo Freire - autor da obra “Pedagogia do Oprimido” - realizou uma das mais severas críticas ao sistema educacional: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor”. Nesse viés, o pensamento de Freire reflete a postura das instituições de ensino a respeito das heranças opressoras da Revolução Industrial, dado que a escola interioriza na mentalidade dos alunos a objetificação do homem, o que faz com que os jovens reproduzam esses ensinamentos nas futuras relações de trabalho. Assim, não é razoável que o ensino contemporâneo insista em fortalecer a cristalização ideológica do século XVIII, pois colabora com a criação de um círculo vicioso de assédio moral, a exemplo de um chefe que oprime o funcionário, que desconta a raiva no filho, o qual será o próximo integrante dessa peça industrial. Por corolário, é indubitável que a omissão escolar é, a longo prazo, a responsável por agredir o maior direito do homem: a dignidade.
Portanto, para que o combate ao assédio moral no trabalho se torne efetivo, as instituições de ensino devem abandonar a passividade em relação às opressões históricas e dar lugar ao ensino do comportamento saudável em uma sociedade, por meio de projetos pedagógicos, como oficinas e minicursos, que integrem os estudantes e os estimulem a trabalhar em grupo, o que fortalece o espírito de alteridade. Essa iniciativa poderia se chamar “Banalidade do Bem” e teria a finalidade de atenuar os casos de opressão contínua no ambiente laboral. Feito isso, tanto a herança da Revolução Industrial quanto a “Pedagogia do Oprimido” deixarão de ser, em breve, uma realidade mundial.