Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 29/10/2019

Informação e saúde

A série “Black Mirror” retrata de forma distópica os efeitos negativos do uso da tecnologia pela sociedade. Apesar dos acontecimentos da obra serem ficção, é inegável que o mundo virtual revolucionou o comportamento das pessoas. Todavia, o mau uso das novas ferramentas de informação pode trazer sérias consequências. Nesse sentido, o Poder Público deve voltar sua atenção para o número cada vez maior de pessoas que apresentam cibercondria, tendo em vista que ela é uma consequência da revolução tecnológica e que impacta diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesse contexto, a hipocondria digital leva muitas pessoas a se automedicarem. Para ilustrar, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), mais de 70% dos brasileiros praticam automedicação. No entanto, a maioria delas desconhece que esse hábito favorece o surgimento de superbactérias. Assim, de acordo com o Ministério da Saúde, a quantidade de casos envolvendo patógenos extremamente resistentes nos hospitais brasileiros cresceu exponencialmente nos últimos anos, o que representa um sério risco a saúde da população.

Ademais, o SUS não tem condição de acompanhar esse crescimento, pois sofre com as medidas de austeridade econômica do governo. Por exemplo, com a instituição da PEC 55, que implantou um teto de gastos públicos que durará 20 anos, a área da saúde irá perder 700 bilhões de reais, ou seja, 350 milhões por ano, conforme cálculos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). Logo, nessa situação, muitas pessoas que possuem cibercondria ou que estão infectadas com antígenos vigorosos correm o risco de não receber um atendimento adequado e de terem o seu quadro agravado.

Destarte, é necessário que o Estado aja em duas frentes. Por um lado, o Ministério da Educação deve ampliar o programa “Saúde nas Escolas” através da criação e da distribuição, em todas as escolas públicas do país, de uma cartilha sobre a hipocondria digital e os seus efeitos, de modo a incentivar a realização de debates e palestras sobre a importância do uso correto da internet e suas tecnologias e a tornar a juventude mais consciente e instruída. Por outro lado, o Ministério da Saúde deve recrutar alunos dos cursos de Medicina e de Psicologia de todas as universidades públicas do país e criar centros especiais de combate à cibercondria, com o intuito de auxiliar o SUS no tratamento de pacientes. Desse modo, será possível evitar que a distopia retrata em “Black Mirror” se torne realidade.