Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 07/10/2019

“Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo”. Tal epígrafe, do escritor português José Saramago, evidencia um viés hodierno significativo, onde o acesso à informações por meios virtuais pode ser nocivo. Nesse contexto, o autodiagnóstico feito em plataformas online ganhou uma nova direção: a cibercondria. Assim, é necessário compreender de que forma essa recente afecção acomete a vida do brasileiro e a razão na qual deve ser considerada uma questão de saúde pública.

Segundo pesquisas da empresa Google Analytics, em 2017, 26% dos internautas utilizam a rede online como mecanismo de busca à problemas de saúde, e que 35% deles buscam atendimento médico. É notório que, este fato pode ser elucidado com o intento de que o acesso à internet está mais disponível aos cidadãos do que um profissional de saúde. Isto é, dados da mesma análise afirmam que 70% da população não possui plano de saúde, corroborando para uma sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS) que não consegue atender a demanda. De forma que, o indivíduo procure o que está ao seu alcance, sem ter a noção de que tal alternativa reforça outros problemas para si, como a automedicação.

Em uma segunda análise, estudos do Conselho Federal de Farmácia (CFF), revelam que 77% dos brasileiros se automedicam, onde 47% o faz uma vez ao mês e 25% faz uso todos os dias. A exemplo disso, na série norte-americana “House”, a personagem principal consome analgésicos fortes levando-o ao vício. Tal arquétipo pode ser visto como comportamento normal ao telespectador que cada vez mais utiliza medicamentos sem prescrição médica. Por fim, essa prerrogativa é validada em um ensaio das Organizações das Nações Unidas (ONU) que afirma que até o ano 2050, a automedicação poderá matar 10 milhões de pessoas no mundo, sobretudo no que tange ao uso indiscriminado de antibióticos, levando à resistência destes medicamentos.

Diante do exposto, o Ministério da Ciência e Tecnologia deve priorizar planos de ação nacional em sites de pesquisas, através de campanhas de cunho informacional aos internautas para incentivo de busca a especialistas médicos e a investigação da veracidade dos referenciais apresentados. Bem como, o CFF em parceria com o Governo Federal devem multar farmácias que vendem medicamentos sem apresentar receita médica, a fim de evitar o risco de dependência e resistência à estes. Assim, a diligência informativa no meio virtual tornar-se-á menos danosa àqueles que a procuram.