Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 03/02/2020

O seriado norteamericano conhecido como Dr. House ou simplesmente House aborda, em diversas cenas, a reflexão sobre o uso indiscriminado de medicamentos. Na história, o doutor Gregory House, infectologista e nefrologista que se destaca pelo brilhantismo em atingir diagnósticos complexos, encontra o uso inadequado de algumas drogas, como agravante de inúmeros casos clínicos. Quando se compara a ficção com a realidade do Brasil, é possível observar muitos indivíduos escolhendo o mesmo caminho perigoso. Isso ocorre tanto pela cultura da indústria farmacêutica e das drogarias, as quais priorizam propagandas desenfreadas para a venda de determinados medicamentos, quanto pela dificuldade de acesso aos médicos, principalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Inicialmente, o marketing massivo disposto nos intervalos dos programas de televisão ou em outros meios de comunicação, como os outdoors, incentivam o consumo de alguns medicamentos. As publicações são chamativas e estimulam as pessoas a adotarem uma postura independente em relação à sua saúde, inserindo, somente ao final, a tradicional frase: “persistindo os sintomas, o médico deverá ser consultado”. Embora a decisão final de levar o comprimido da palma da mão até a boca seja do paciente, este buscará respaldo antes de fazê-lo. Nesse sentindo, é obrigação dos autores desses anúncios, o fornecimento de informações completas, esclarecendo sobre efeitos adversos e contraindicações.

Ademais, faz-se necessário avaliar a privação de orientação médica sofrida por parte daqueles que fazem uso de medicação. Muitos pacientes não possuem condições financeiras para arcar com os custos de uma consulta particular ou que favoreça a adesão a um plano de saúde. Segundo a pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 69,7% dos brasileiros não possuem plano de saúde particular, e, dentro dessa população, 44,8% acabam utilizando os serviços do SUS, os quais encontram-se congestionados em muitos municípios. Uma vez que faltam médicos para atender todo contingente que depende do sistema público de saúde, o caminho mais curto é o da automedicação.

Infere-se, portanto, que a automedicação é uma prática de difícil controle, mas existem meios para minimizá-la. Em primeiro plano, o Ministério da Saúde junto de senadores e deputados, devem promover o desenvolvimento de regulamentos mais rígidos para as propagandas de medicamentos, a fim de que tragam maiores informações sobre os riscos dos mesmos. Outrossim, Universidades de Medicina devem aderir ao Programa Médicos pelo Brasil, com o intuito de estimular a formação de mais médicos especializados em Medicina de Família e Comunidade, os quais possam levar conhecimento de qualidade às áreas mais restritas e transformar a mentalidade brasileira à respeito das drogas.