Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 22/10/2019
O documentário norte-americano “Take Your Pills” demonstra como a sociedade do século XXI, extremamente acelerada e competitiva funciona a partir do consumo de medicamentos sem supervisão médica. De forma similar, o contexto brasileiro de automedicação apresenta ameaças á saúde publica, visto que o notório estreitamento dos modos de vida da população contemporânea e a busca negligente da mesma pela cura nas plataformas digitais, além de levarem á desvalorização dos profissionais da saúde, comprometem efetivamente o bem-estar dos indivíduos de toda a nação
A princípio, é válido destacar a prejudicial automatização dos estilos de vida da sociedade moderna; nomeada “Sociedade do Cansaço” pelo filósofo coreano Byung-Chul Han, em que a população hodierna, segundo ele, é regida pela produtividade e pelo desempenho a todo momento, assim como em “Take Your Pills”, o que resulta na falta de tempo, esgotamento e exaustão de um indivíduo diretamente inserido e submisso ao sistema capitalista vigente. Dessa forma, o uso inadvertido dos fármacos tornou-se imprescindível tanto para o alcance de um melhor desempenho, seja no âmbito profissional ou estudantil, quanto para o controle de sintomas, a fim de dispensar o atendimento médico e poupar o tempo da rotina acelerada. Contudo, a utilização frequente e imprópria dos medicamentos é capaz de gerar consequências negativas como intoxicação, problemas cardiovasculares, dependência, ansiedade e até mesmo o óbito por desconhecimento das substâncias alérgicas contidas nos remédios.
De maneira análoga, é pertinente ressaltar, ainda, a procura pela recuperação imediata através de páginas “online”, não confiáveis, que induzem ao autodiagnóstico e à compra, muitas vezes virtual, dos fármacos sem a devida prescrição médica. Tal ato negligente de uso à internet como objeto de busca da “cura” para sintomas, faz-se ainda mais acessível e arriscado quando não há fiscalização nas plataformas que oferecem as informações sem a presença aprofundada e verídica dos dados. Isto posto, a desvalorização e desprestígio dos profissionais da área da saúde alcança números cada vez maiores, decorrentes da pouca procura e dos elevados valores de planos de saúde em um país onde o acesso à saúde de qualidade está diretamente relacionada á classe social em que se encontram os pacientes. A exemplo, segundo o portal de notícias da Globo, G1, entre dezembro de 2014 e janeiro de 2017, os planos de saúde no país perderam 2,8 milhões de usuários, o que nitidifica a queda na demanda por uma vida saudável e a urgências de melhorias no Sistema Único de Saúde (SUS) para a diminuição da automedicação das classes desfavorecidas que, ao se depararem com a deficitária saúde pública, não têm onde recorrer.
Ao analisar o exposto, para combater o uso displicente de fármacos na sociedade brasileira, faz-se necessária a atuação dos Ministérios da Saúde e Educação que, respectivamente, devem proporcionar aos jovens e adultos, o avanço no serviço oferecido pelo SUS, com verbas direcionadas à manutenção do Sistema junto à criação de plataformas com atendimentos digitais do Ministério da Saúde, a fim de garantir maior veracidade nas informações existentes no meio tecnológico. Além disso, é imperiosa a participação frequente de profissionais da saúde no âmbito escolar, com o intuito de sensibilizar os alunos e professores, através de palestras com testemunhas e apresentações dos riscos gerados pelo consumo negligente de medicamentos. Somente assim, o árduo percurso do combate á automedicação será conduzido à extinção e alcançará a minimização dos impactos da “Sociedade do Cansaço” descrita por Byung-Chul Han.