Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 03/09/2019

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a automedicação é um dos preceitos do autocuidado. De fato, quando empregados de forma responsável, os medicamentos isentos de predicação (MIPs) são importantes no alívio de sintomas e na promoção do bem-estar. Porém, o uso indiscriminado de remédios é preocupante para a saúde da população brasileira e reflete, a desinformação da população aliada a um sistema de saúde público e privado deficiente e os excessos da publicidade da indústria farmacêutica.

Primeiramente, conforme o conceito de sociedade do desempenho do sociólogo Byung-Chul Han, os indivíduos vivem constantemente pressionados a alcançar altos desempenhos sociais. Sob essa lógica, a população recorre ao uso de medicamentos como alternativa de cura imediata que auxilie na manutenção dos compromissos do cotidiano diante de um atendimento médico no sistema de saúde público burocrático e precário. Consequentemente, a automedicação perpetua-se como um hábito cultural em uma população desinformada sobre os riscos à saúde como a intoxicação, o diagnóstico tardio e o aumento da resistência bacteriana devido ao uso indiscriminado de antibióticos.

Além disso, analogamente ao conceito de sociedade de consumo do sociólogo Jean Baudrillard, o capitalismo gera demandas artificiais e cria necessidades de consumo. Nesse sentido, os medicamentos tornam-se objetos de consumo devido aos interesses da indústria farmacêutica que utiliza publicidade como ferramenta para gerar demanda, formar opinião entre os que prescrevem e induzir o consumo. Afinal, segundo levantamento do Kantar Ibope, esse é o setor com a empresa que mais investiu em marketing em 2018, o que alerta sobre os riscos do direcionamento dessas campanhas publicitarias.

Portanto, é necessário que o Estado, por meio de ação integrada do Ministério da Saúde com os meios de comunicação,  elabore campanhas e debates com a participação de profissionais da saúde que alertem os riscos da automedicação, a fim de conscientizar a população sobre o uso responsável dos medicamentos, aliado ao investimento prioritário no setor de saúde do país com foco na atenção básica, para facilitar o acesso ao atendimento médico nas comunidades. De mesma importância, o governo, por meio dos conselhos publicitários e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, deve ampliar a fiscalização do cumprimento da regulamentação da publicidade de medicamentos, com o intuito de evitar práticas abusivas que manipulem a população e contribuam para a perpetuação da prática da automedicação indiscriminada.