Aumento da expectativa de vida no Brasil

Enviada em 03/09/2019

A peça Rei Lear, de Shakespeare, retrata a história de um rei que, ao perceber que fez uma péssima escolha quando repartiu seu reino entre filhos egoístas, enlouquece e começa a se debilitar. O bobo da corte, percebendo o definhamento de seu amo, profere que “não se pode envelhecer sem antes atingir sabedoria”. Essa sentença relaciona elementos importantes: conhecimento e longevidade. Do mesmo modo, pode-se dizer que, fora da ficção, o avanço na escolaridade e nas práticas médicas no Brasil, ou seja, do saber nacional, contribuiu para o aumento da expectativa de vida no país. No entanto, esse processo se dá de forma desigual entre ricos e pobres e gera consequências que merecem ser analisadas.

Em um primeiro momento, vale ressaltar que o incremento no número de anos vividos não ocorreu de maneira homogênea entre a população. Segundo o Mapa da Desigualdade de 2017, enquanto nos últimos dez anos uma pessoa de um bairro nobre em São Paulo ganhou a perspectiva de viver por mais cinco anos, um morador da área pobre da cidade teve um acréscimo de apenas mais um ano a sua vida. Tal cenário é claramente fruto da imensa disparidade de acesso ao lazer, a centros de sáude bem equipados e segurança, o que fere o princípio da isonomia garantido pelo artigo quinto da Carta Magna.

Ademais, é imperioso destacar os efeitos do aumento da expectativa de vida nas finanças do país. Nesse sentido, o maior número de idosos conjugado com a diminuiçao da População Economicamente Ativa (PEA), resultante da queda da natalidade no Brasil, acarreta a sobrecarga do sistema previdenciário. Isso se dá porque crescem os beneficiários e se reduzem os contribuintes. Como consequência, o Ministério da Economia prevê um rombo nos cofres públicos de um trilhão de reais nos próximos dez anos, caso tal estrutura permaneça inalterada.

Portanto, devem-se adotar medidas minimizadoras dessa problemática. Urge, então, ao Ministério do Planejamento em parceria com estados e municípios a criação, por meio de verbas governamentais, de centros esportivos, areas de lazer e clínicas especializadas em geriatria em áreas que, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, tenham expectativa de vida abaixo da média nacional. É dever também do Legislativo a reformulação, mediante alterações na lei, do sistema previdenciário. Tais medidas têm por fim garantir que todos possam envelhecer de maneira saudável e preparar o país para esse novo cenário.