Alternativas para reduzir o analfabetismo funcional no Brasil
Enviada em 24/03/2019
Paulo Freire, importante educador brasileiro, costumava afirmar que o ensino deveria instrumentalizar os discentes para “ler o mundo”. Isso significa que os alunos não apenas seriam capazes de decodificar uma sequência de letras e palavras, mas de interpretar seu significado em relação aos contextos intra, inter e extratextuais (estes últimos, suas experiências de mundo). Entretanto, atualmente, a desigualdade entre a qualidade do ensino oferecido pelas escolas particulares e públicas e a política de aprovações automáticas trazem como consequência a incapacidade de uma grande parte da população brasileira de compreender mesmo enunciados escritos básicos, veiculados pela grande variedade de mídias que a contemporaneidade proporciona.
Em primeiro plano, a diferença de currículos oferecidos pelas escolas particulares e públicas evidencia a reprodução das estruturas de desigualdade social estabelecidas nas pesquisas de Pierre Bourdieu. Enquanto nas primeiras existe oferta de atividades que complementam e aprofundam os conteúdos lecionados em sala de aula, como clubes de leitura e redação, estimulando o pensamento autônomo, nas últimas muitas vezes a falta de investimentos é impeditivo para instalação de bibliotecas e realização de outras atividades culturais. Com isto perpetua-se, nas escolas públicas, um ensino centrado na repetição e na memorização, o que Freire denominava “educação bancária” -aquela em que o professor “deposita” conteúdo e o aluno o “saca” na hora da prova para responder às perguntas.
Adicionalmente, visando a melhoria dos índices de confiabilidade do Brasil para investimentos internacionais, que têm a educação formal como um dos parâmetros, a maioria dos municípios brasileiros aderiu a um programa de aprovação automática dos alunos. Dele resulta a melhoria no número absoluto de estudantes concluintes do Ensino Médio e a diminuição da defasagem idade-série. Entretanto, dados veiculados pelo site do INEP apontam que, em 2015, 50,99% dos estudantes nos anos finais do Ensino Fundamental não eram proficientes em leitura, de acordo como o exame internacional PISA, que avalia estudantes de diferentes países também em conhecimentos de ciências e matemática.
Por conseguinte, urge que o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, aumente o repasse de verbas destinadas à educação básica. Este terá como finalidade o beneficiamento das instalações escolares em si, com construção de bibliotecas, e a contratação de profissionais que acompanharão mais de perto os estudantes com maiores dificuldades, ademais de poderem desenvolver atividades paralelas àquelas das salas de aula. Assim, os estudantes aprenderão a ler não somente textos, mas também o mundo e o papel transformador da educação será concretizado.