Alternativas para combater os maus-tratos aos animais

Enviada em 15/10/2018

“Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu, Dona Chica admirou-se do berro que o gato deu”. A antiga canção de roda denota uma visão de legitimação aos maus tratos aos animais. Entretanto, embora tenha sido escrita há muita décadas, a relação entre homem e animal continua marcada por abusos e exploração. Em torno dessa problemática, deve-se analisar a influência que o antropocentrismo, bem como a mentalidade retrógrada, exerce em sua potencialização.

De início, o antropocentrismo é um fator decisivo para persistência dos maus tratos aos animais. Isso ocorre porque, essa corrente de pensamento, que surgiu no Renascimento Cultural, enxerga o ser humano como o pináculo da existência, em razão da sua capacidade pensante. Tal conjuntura pode ser exemplificada por intermédio da máxima decartiana “penso, logo existo”, a qual associa o pensamento à existência, implicando na objetificação daqueles abaixo da complexidade do raciocínio humano - os animais. Em decorrência, a senciência dos bichos é ignorada, na medida em que são inúmeras as empresas que realizam testes em animais, tais como coelhos, ratos e até mesmo cachorros.

Em seguida, a mentalidade atrasada também é um dos fatores que atuam na continuidade dos maus tratos. Tal fato se explica por aquilo que Pierre Bordieu, sociólogo francês, chamou de habitus, conceito segundo o qual a coletividade incorpora e reproduz as predisposições sociais circundantes. A vaquejada, por exemplo, é uma atividade cultural cruel, validada, fundamentalmente, como um símbolo tradicional nordestino, como pôde ser visto numa recente votação parlamentar, que tornou a prática constitucional. Em consequência, o bem-estar físico e emocional desses seres vivos é preterido em favor do mantenimento de costumes estapafúrdios, visto que a vaquejada é permeada por lesões ao animal participante, que vão desde o estresse até a ruptura da cauda.

Percebe-se, portanto, que o combate aos maus tratos aos animais enfrenta raízes existencialistas e culturais. Assim, cabe à escola, enquanto instituição de grande poder transformador, promover a realização de rodas de conversa entre alunos e ativistas da causa animal, mediante parcerias com ONGs, a exemplo da Animais Aumigos, de Salvador. Com essa ação, objetiva-se elucidar a necessidade de reconhecer a senciência dos bichos, com vistas a incentivar uma convivência harmoniosa entre ambas as partes. Outrossim, urge ao Supremo Tribunal Federal, por meio de discussões entre os membros, reconsiderar a constitucionalidade da vaquejada, ponderando até que ponto o estresse desnecessário a que os bovinos são submetidos deve ser sobreposto pela cultura.