Aleitamento materno em questão no Brasil

Enviada em 04/10/2019

Sob a perspectiva histórica, o ex-presidente Jânio Quadros, em 1961, proibiu a utilização de biquínis com a justificativa de ser pornográfico e imoral. Nessa óptica histórico-social, a reconstrução dessa circunstância, a qual a sexualização exacerbada dos corpos femininos impede a realização de ações ordinárias pelas mulheres, sucede-se pela ausência de um diálogo educativo entre sociedade e Estado. A partir disso, observa-se as políticas públicas educadoras do tecido social como condutas preferíveis frente à problemática.

Nesse contexto, a escritora Simone Beauvoir, em sua obra “O segundo sexo”, concebe o preconceito sobre a prática do aleitamento como produto de uma sociedade onde o corpo da mulher é hiperssexualizado. Por esse panorama, a amamentação, por exemplo, em locais públicos, ultrapassa a condição de alimentação, que é fundamental para o desenvolvimento saudável dos bebês, e alça o patamar pornográfico pela presença do seio feminino, o qual é alvo de estigmatizações sociais como a ligação com a nudez erótica. Dessa maneira, a falta de educação sobre o papel nutricional e incontestável da aleitação mediatiza a intolerância social baseada no estigma da nudeza feminina , o que é repudiável.

Ademais, segundo o estudo da empresa Lansinoh de produtos para alactamento, em 2015, 21% das mulheres acham o aleitamento em público constrangedor e 2% consideram o ato como errado. Mediante a esses dados, nota-se um contexto análogo ao do governo de Jânio Quadros, em que a mulher é vedada de realizar ações absolutamente normais pela hiperssexualização de seu corpo. Dessa forma, não é razoável que a lactação seja prejudicada por conceitos sociais sexualizadores da anatomia feminina.

Portanto, é dever do Estado agir no sentido de educar seus cidadãos para retirar ideias infundadas do tecido social sobre o alactamento em locais comunitários e incentivar esse ato. Sendo assim, cabe ao Ministério da Saúde elaborar e executar uma campanha nacional de estímulo a lactação com propagandas educativas nos canais televisivos e digitais, palestras em centros comunitários e distribuição de panfletos sobre esse processo que expliquem os benefícios para a saúde dos bebês e a não sexualização da prática por meio de investimentos orçamentários na Secretaria de Comunicação Social. Desse modo, tem-se o objetivo de mitigar a incomplacência do corpo social ante a amamentação pelo diálogo educativo entre malha social e governo.