A violência obstetrícia em debate no Brasil
Enviada em 30/01/2021
Mary Wollstonecraft, escritora precursora da filosofia feminista, critica em sua obra “Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher” a ausência de debate sobre a condição feminina diante das consequências da Revolução Francesa. De maneira análoga, é importante trazer à tona a discussão sobre o combate à violência obstetrícia no país. Nesse sentido, convém analisar tanto a problemática como um efeito do patriarcado, quanto a lógica industrialista que resume o parto ao esvaziamento do útero e ignora o bem-estar da mãe.
Em primeiro plano, a luta contra esses abusos ainda não foi abraçada pelo cidadão médio e isso figura como o reflexo da dominação patriarcal sobre o corpo feminino. Sob essa ótica, o romance distópico “O Conto da Aia” - da escritora canadense Margaret Atwood - ilustra como uma crise de fertilidade resultou na desumanização de um grupo de mulheres ainda capazes de gerar filhos. Assim, é crucial reestabelecer o respeito às pacientes como uma resposta à normalização do machismo.
Outrossim, a ideia de que um parto bem sucedido resume-se à entrega da criança deve ser superada em prol do respeito à integrigade da gestante. Em vista disso, o documentário brasileiro “O Renascimento do Parto” explora o processo do nascimento, historicamente pertencente às mulheres, e sua patologização iniciada com a medicina moderna. Dessa forma, é imprescindível rehumanizar o parto e apoiar as necessidades emocionais e físicas de cada mulher em detrimento do procedimento mais rápido ou fácil para equipe médica.
Faz-se necessário, portanto, que o Ministério da Saúde desenvolva um projeto de renovação do sistema obstétrico brasileiro, por meio de duas frentes de atuação tanto a educacional, quanto a fiscalização de metas a serem alcançadas. O governo deve oferecer cursos preparatórios sobre partos humanizados integrados a rede hospitalar, considerando a experiência de doulas e parteiras, além de exigir relatórios médicos que justifiquem individualmente o uso de procedimentos não recomendados como a episotomia e cesária. Epera-se, com isso, não apenas reduzir os índices de violações obstetrícias no Brasil, como também ir de encontro ao pensamento de Wollstonecraft sobre pauta da condição da mulher na sociedade.