A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 27/09/2021

Durante a Quarta Revolução Industrial, grande parte das pessoas não precisa mais usar o transporte público ou passar pelo trânsito para ir ao trabalho, e o termo home office tornou-se parte do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Isso se deve pelo avanço tecnológico que ocorre na contemporaneidade, investido em formas de comunicação a distância. Com isso, as normas trabalhistas podem sofrer flexibilizações, precarizando o trabalho e tirando direitos do trabalhador. Desse modo, é importante a discussão sobre a “uberização”, ainda que parcial, do trabalho na era tecnológica.

Em primeira análise, é importante frisar que a grande flexibilização do trabalho, que permite que o colaborador exerça seu serviço em qualquer ambiente, pode trazer problemas como a privação de lazer e descanso fora do ofício. Isso visto que o empregador, com a tecnologia à sua disposição, pode cobrar por metas e serviços mesmo fora do local e do expediente de trabalho do empregado. Levando-se em conta o pensamento do filósofo Karl Marx, que diz que o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas um modo de satisfazer necessidades externas a ele, percebe-se a problemática causada pelo emprego do trabalho remoto, que fere o direito do trabalhador de corresponder aos seus próprios dilemas da vida cotidiana.

Ademais, cabe comentar que, mesmo durante a era técnológica, segundo o portal de notícias Brasil de Fato, em 2020, 46 milhões de brasileiros não tinham acesso à internet. Considerando o crescimento da tecnologia no mercado de trabalho, é desanimador prever que, em um futuro não tão distante, o desemprego pode crescer ainda mais, dado que cerca de um quarto da população ainda não tem acesso ao mundo vitual - situação essa que divide a classe trabalhadora entre os que podem trabalhar em home office, arriscando seus direitos, e os que não podem, cada vez mais marginalizados no mundo do trabalho.

Por fim, percebe-se a necessidade de medidas que visem proteger os direitos do trabalhador em meio ao crescimento tecnológico. Sendo assim, cabe ao Estado, por meio da aprovação de novas leis trabalhistas, impor às empresas regras que estabeleçam uma carga horária justa de trabalho, mesmo na modalidade remota. Além disso, cabe ao governo promover a igualdade social, para que, com isso, a parcela da população que ainda não usufrui da internet possa tê-la por direito. Dessa forma, o pensamento de Karl Marx fará sentido em nossa sociedade, e a tecnologia no trabalho não será uma ameaça aos direitos do trabalhador ou uma ferramenta para a sua precarização.