A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 07/12/2020

“Black Mirror” é uma série televisiva que tem como temática central um mundo no qual as consequências negativas do uso da tecnologia tomam proporções distópicas. Fora da ficção, percebe-se um aumento exponencial do número de serviços que buscam facilitar a vida das pessoas através de tecnologias digitais. Contudo, esse fenômeno caracterizado como “uberização” estimula o consumismo desenfreado de uma sociedade cuja legislação não se atualiza na mesma velocidade. Dessa forma, o trabalhador que opta por adotar esse novo modelo de trabalho corre o risco de ser precarizado.

Antes de tudo, é fundamental entender como a ascensão dos serviços ofertados através da tecnologia fomentam ainda mais o movimento consumista protagonizado pelo processo de globalização. Essa relação é fundamentada no alcance ilimitado que a tecnologia da comunicação fornece. Assim, serviços que só poderiam ser ofertados em uma pequena área passam a ocupar uma escala global. Dessa forma, de acordo com a lógica proposta pelo filósofo Zygmunt Bauman, se estabelece uma relação direta entre o agravamento do consumismo e o aumento do número de serviços que chegam aos olhos do consumidor.

Além disso, como consequência da crescente de demanda desencadeada pelo consumismo, aumenta-se também o trabalho para conseguir entregar o serviço prometido. Contudo, sabe-se desde o século XVIII, com a introdução do pensamento de John Locke, que o trabalho humano não é algo escalável. Naquele contexto, o iluminista inglês encontrou a reposta para essa limitação  por meio de um contrato social que garantisse a troca justa de trabalho por dinheiro. Porém, 300 anos depois, nota-se um descaso crescente com condições e remunerações dignas que respeitem o trabalhador, normalmente terceirizado ou temporário nesse modelo de negócio.

É substancial, portanto, que medidas sejam tomadas para a resolução desse impasse. Em primeiro lugar, é necessário que o poder legislativo crie mecanismos para a regulamentação das condições de trabalho de funcionários terceirizados ou temporários. A fim de extinguir a exploração dessa classe trabalhadora, é imprescindível que as horas trabalhadas sejam limitadas, passíveis de bonificação e proporcionais à remuneração de um trabalhador regular. Dessa forma, além de acabar com a precarização do trabalho “uberizado”, ocorrerá uma diminuição expressiva na capacidade de entrega de serviços e, consequentemente, uma amenização do consumo. Somente assim, será possível impedir que a vida real se transforme em mais um episódio de “Black Mirror”.