A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 05/03/2021

No relatório anual “The Inclusive Internet Index 2019”, o Brasil ficou em 66º lugar no quesito alfabetização digital. Esse é um conceito que tem ganhado cada vez mais importância com o crescimento virtual, e em vários países de primeiro mundo já é uma pauta de discussão. Logo, levando em consideração as particularidades da nação brasileira, é possível dizer que o analfabetismo digital representa uma ameça à democracia e pode trazer um tipo novo de desigualdade e discriminação.

A priori, destaca-se um dado revelado pelo The Economist: o Brasil está em 4º lugar entre os países que mais confiam cegamente nas informações fornecidas pela internet. Enquanto isso, a Suécia se encontra em 62º. Portanto, conclui-se que o ambiente digital brasileiro propicia muito mais amplamente a disseminação das “fake news”, notícias falsas, as quais se relacionam com o analfabetismo por diversos motivos. O mais importante deles é o desconhecimento do uso das redes sociais, fator que Yuval Noah Harari, autor israelense do livro “21 lições para o século XXI”, indica como indispensável para que haja a manipulação de dados. Ou seja, se a população do Brasil não sabe utilizar a internet e desconhece o que está por trás das notícias recebidas, o algoritmo a prenderá em uma bolha da qual é muito difícil sair. Por conseguinte, tal realidade é comprometedora para a democracia, pois influencia o pensamento dos indivíduos e, nas mãos de um governo autoritário, diz Yuval, é uma arma poderosa.

Outrossim, pode-se dizer que o analfabetismo digital ameaça a igualdade entre os seres humanos, que é frágil mesmo na sociedade física. Outrora, brasileiros analfabetos eram impedidos de participar da vida política, comprometendo um direito constituinte da cidadania. Segundo José Murilo de Carvalho, cientista político e escritor do livro “Cidadania no Brasil”, a abertura do direito ao voto aos que não sabiam ler ou escrever possibilitou uma ampliação da característica democrática brasileira. Isto é, segundo ele, um povo desprovido do seu direito de votar era privado de ser cidadão, como era o caso dos analfabetos no século XX. Semelhantemente, uma discriminação contra essas pessoas no meio digital pode vir a surgir, considerando que as oportunidades virtuais aumentam cada vez mais e surge uma realidade inteira online.

Em síntese, o sistema de educação do Brasil deve expandir a consciência virtual da sua população. Isso pode ser realizado por intermédio de aulas de educação tecnológica, realizadas em presença de especialistas em informática e controle de dados. Os alunos aprenderiam sobre a existência dos algoritmos e seriam inseridos culturalmente nas obras que abordam os perigos da internet, como os livros de Yuval Noah Harari e documentários. Os objetivos dessa ação são garantir a manutenção da democracia brasileira, estimular o pensamento crítico e impedir o surgimento da discriminação virtual.