A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 05/03/2021

No livro “Vidas Secas”, do escritor Graciliano Ramos, o protagonista Fabiano, desprovido do acesso ao conhecimento, acaba sendo explorado e humilhado por aqueles que detém o saber. Nessa ótica, sendo a arte uma mera representação da realidade, nota-se que na contemporaneidade existem muitos fabianos no Brasil, notadamente no que se relaciona à questão do analfabetismo digital no país. Isso, pois apesar de o meio virtual ser fundamental para o equilíbrio das relações socioeconômicas do século XXI, a desigualdade social associada a uma cultura de aceitação por parte das massas apresenta íntima relação com esse deficitário cenário de ignorância no uso dos veículos digitais.

A priori, tem-se a noção de que desde os processos denominados Revoluções Industriais e a ascensão ao capitalismo, o Brasil, mesmo que de maneira lenta, modernizou-se. No entanto, é importante pontuar que diversos entraves foram observados na  tentativa de desenvolvimento da nação e, infelizmente, dentre eles, destaca-se o analfabetismo digital de uma grande parcela da sociedade, em especial dos grupos menos favorecidos econômica e socialmente. Esse fator, embora esteja presente no cotidiano de diversos indivíduos que, por não terem acesso aos veículos digitais de maneira correta, sobretudo aos associados à internet, sofrem com a naturalização dessa realidade e, consequentemente, ficam sujeitos à alienação e a notícias falsas que circulam nas redes, fator esse observado nos grupos em situação de pobreza, mormemente os indivíduos da terceira idade.

Ademais, a aceitação da questão do analfabetismo digital pelo corpo social provém de um ensino ineficaz e, muitas vezes inexistente, o que acarreta falta de conhecimento sobre os direitos individuais. Nesse viés, de acordo com os iluministas Diderot e D’Alembert, autores da “Enciclopédia”, a democratização da educação é fundamental no combate à ignorância dos cidadãos, garantindo aos mesmos sua efetiva liberdade. Dessa forma, entende-se que embora a tecnologia tenha se tornado um instrumento educacional importante, a má distribuição de seu acesso torna-se um impasse para que a cidadania seja gozada por todos de maneira plena.

Tendo em vista o que foi discutido, é necessário que os governos estaduais busquem promover uma maior inclusão das pessoas na utilização correta dos veículos digitais. Para que isso ocorra, o Estado, em parceria com o ministério da educação (MEC), deve instituir projetos sociais que visem educar aqueles cidadãos carentes de conhecimentos acerca do uso adequado dos meios digitais, por intermédio de profissionais qualificados e de um amplo apoio midiático, que inclua propagandas televisivas, matérias em jornais e debates entre os professores, a fim de ampliar o acesso à educação. Assim, a construção da cidadania será facilitada e os fabianos se tornarão, de fato, cidadãos plenos.