A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 10/01/2021

Hannah Arendt, na obra “A Origem das Revoluções”, afirma que os processos revolucionários são transformações imparáveis que se impõem ao mundo e reinventam o futuro. Contemporaneamente, a internet e seus recursos modificaram as relações humanas, como refletido pela filósofa política, a partir da Terceira Revolução Industrial. Entretanto, o analfabetismo digital no Brasil mostra-se um entrave para as mudanças propostas pela autora. Com efeito, esse grave panorama deve ser enfrentado, uma vez que permite a deslegitimação de direitos e a produção de efeitos negativos para diversas vidas.

Em um primeiro plano, o combate ao analfabetismo virtual faz-se imprescindível, porquanto tal conjuntura afronta garantias fundamentais. Essa correlação pode ser explicitada pela negação do direito à informação, visto que os analfabetos digitais são impossibilitados de acessar a variedade de conhecimentos e notícias no meio online, o que prejudica a formação de opinião e criticidade por tais indivíduos. Nesse sentido, a exclusão digital no país contraria a proposição de Paulo Bonavides, em “Curso de Direito Constitucional”, na medida em que o cientista político aponta o acesso às informações como pressuposto indispensável para a efetivação da dignidade. Dessa forma, a desconstrução desse cenário torna-se crucial para a defesa da humanidade por trás de valores essenciais.

Ademais, o enfrentamento do analfabetismo digital necessita ser compreendido como demanda prioritária, haja vista sua manutenção impactar negativamente milhares de vidas. Isso ocorre devido à opressão sofrida por sujeitos que, isolados do restante da população com maior entendimento sobre o ciberespaço, deixam de aproveitar diversas oportunidades socioeconômicas advindas das tecnologias, o que aprofunda a segregação social. Nessa perspectiva, a persistência da marginalização dos analfabetos digitais transgride o pensamento de Jürgen Habermas, em “A Inclusão do Outro”, o qual destaca que incluir e amparar todos os cidadãos perfaz-se como prerrogativa para o convívio harmônico. Desse modo, possibilitar a alfabetização no meio virtual apresenta-se como medida indispensável para o aumento da inclusão proposta pelo sociólogo.

O analfabetismo digital, portanto, consubstancia a violação de direitos e a continuidade de mecanismos opressivos. À vista disso, o Poder Executivo Federal deve desenvolver políticas públicas de alfabetização na esfera online, por meio da disponibilização de cursos acessíveis nas periferias acerca do uso da internet, os quais garantam a contratação e o treinamento continuado de profissionais especializados na modalidade de ensino em questão, com a finalidade de estimular a inclusão tecnológica em toda a nação. Dessa maneira, o quadro transformador desvelado por Hannah Arendt será uma realidade empírica para o Brasil.