A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 11/01/2021
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, caracterizada pela ausência de conflitos e problemas. Entretanto, o que se observa na realidade contemporânea brasileira é o oposto do que o autor prega, uma vez que o analfabetismo digital é uma barreira na luta pela garantia dos direitos à cidadania e pelo acesso pleno à educação. Esse cenário antagônico é fruto tanto da negligência estatal, quanto da falta de capacitação para o manuseio de dispositivos e ferramentas digitais.
Precipuamente, é fulcral pontuar que a improficiência digital deriva da baixa atuação dos setores governamentais. Segundo o pensador Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. No entanto, é possível perceber que, no Brasil, a democratização do uso de tecnologias ainda é uma quimera, visto que as pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade socioeconômica são, muitas vezes, negligenciadas pelo Estado e, consequentemente, impossibilitadas de acompanharem as inovações tecnológicas. Dessa forma, o que provém desse descaso com essa parcela da população é o crescimento contínuo das desigualdades sociais e a dificuldade no alcance absoluto à educação, o que infelizmente é evidente no país.
Outrossim, é fundamental apontar a falta de capacitação para o manuseio de tecnologias como impulsionador do problema. De acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, 41,6% dos brasileiros alegaram não saber usar a internet. Diante disso, é notório que existem barreiras vinculadas às competências dos usuários em lidar com dispositivos e serviços digitais, já que os idosos e os mais desfavorecidos economicamente têm maior dificuldade em naturalizar este convívio tecnológico. Por conseguinte, esse fator não assegura a participação plena desses usuários na sociedade - no contexto político, econômico, cultural e social brasileiro. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.
Cabe, portanto, ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, por intermédio de projetos de inclusão digital, ampliar o financiamento para a aquisição de dispositivos e serviços tecnológicos (computadores, pontos de acesso à internet e telefonia móvel), com foco em zonas mais carentes e afastadas, a fim de democratizar o acesso às inovações técnico-científicas hodiernas e tornar essa quimera uma realidade no país. Ademais, em consonância com os institutos tecnológicos e as universidades, por meio de cursos e oficinas, capacitar os usuários para o uso amplo dos dispositivos e ferramentas digitais, com o fito de incluir os cidadãos nesse âmbito e garantir seus direitos à cidadania. Desse modo, o quadro vigente aproximar-se-á da “Utopia” de More.