A questão da xenofobia no Brasil
Enviada em 16/10/2019
Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou na obra “Os retirantes” uma família que sai de uma região à outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, estrangeiros e refugiados protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de tolerância e paz. Tais demandas para findar a xenofobia, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à ignorância da mentalidade social intrínsecas ao impasse.
Segundo Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da sociedade. Entretanto, essa ideia encontra-se negligenciada visto que a falta de políticas repressoras à discriminação aliada à baixa fiscalização corroboram a permanência de atos intolerantes. A impunidade enfrentada por muitos agressores dificulta seu combate por demonstrar a ausência de consequências para sua prática, o que comprova a inatividade do Governo. Portanto, sem o comprometimento desse setor, a xenofobia tende a permanecer e coloca em risco a integridade dos que vêm de outras culturas.
Outrossim, além do descaso do sistema punitivo, há como agravante a perpetuação de concepções enraizadas no país há séculos. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre de Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de uma sociedade. Dessarte, atos discriminatórios contra estrangeiros, protagonizados repetidamente na história, são repassados e ainda ecoam na atualidade, o que gera um ciclo que deve ser desfeito. Desse modo, uma mudança nos valores da comunidade é essencial para que a aversão ao diferente não seja um obstáculo a ser enfrentado ao longo das gerações.
Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. A princípio, cabe ao Governo criar postos de denúncia online específicos para casos de discriminação aos estrangeiros e refugiados. Com isso, as vítimas se sentirão mais confortáveis no ato de denunciar e o assunto ganhará mais visibilidade, o que gera maior movimentação para promoção de leis mais abrangentes e fiscalizações mais firmes. Paralelamente, cabe às ONGs aflorar o senso crítico da sociedade por meio da distribuição de cartilhas educativas que advertam sobre o crime da xenofobia, com o objetivo de ensinar a identificar e denunciar as práticas, assim como sensibilizar toda população a lutar. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.