A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 13/08/2021
O desgaste da dignidade da pessoa humana não é uma invenção atual. No Brasil, tal problema é recorrente e pode ser comprovado pelos elevados índices de indivíduos famintos - em 2014, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 7 milhões de brasileiros convivem com a fome. Diante da precariedade desse contexto, é necessário ressaltar dois fatores principais para a consolidação do impasse - o paradoxo distributivo de alimentos e o descaso governamental. Caso o país queira reverter essa situação, terá de estudar medidas firmes e eficazes de combate.
Em primeiro lugar, nota-se que há uma contradição quantitativa com relação à produção e à distribuição de alimentos no Brasil. Apesar de os produtores já desenvolverem tecnologias capazes de gerar uma quantidade de alimentos suficiente para sanar a fome em âmbito nacional, a distribuição, por sua vez, não é efetiva. Isso ocorre por diversas causas, uma delas é a prioridade econômica, uma vez que a agroindústria está voltada para o mercado externo. Nesse sentido, grãos de elevada demanda são produzidos em detrimento dos que são necessários na dieta diária do brasileiro. Para Kant, o ser humano deve agir de modo que tomes a humanidade tanto na tua pessoa quanto na pessoa do outro. O agronegócio, no entanto, atua de encontro ao pensamento do filósofo alemão, pois sua ação colabora para a retirada de dignidade das pessoas famintas.
Ademais, vale ressaltar o papel do Estado como mediador do processo de redução de desigualdades dentro de uma sociedade. Antes de tudo, é fundamental perceber que a Constituição Cidadã de 1988 garante o direito à alimentação digna e qualitativa para todos no seu Artigo 6°. Fora dos papéis, o que ocorre é uma deturpação dos ideais democráticos. O governo não promove com efetividade a distribuição de recursos alimentares tendo em vista a burocratização dos programas de auxílio como o bolsa família e a ineficácia dos acordos políticos com o agronegócio. O infeliz reflexo desse panorama é, portanto, divulgado na tese de Pierre Bourdieu: grupos minoritários sofrem a todo momento com a opressão simbólica.
Diante de tamanha incoerência social, o Estado deve efetivar a distribuição de alimentos nacionalmente. Esse processo deverá ocorrer por intermédio de acordos políticos com a agroindútria, de modo que parte da produção seja, de fato, direcionada para o mercado interno, com o objetivo de restituir a dignidade das pessoas menos favorecidas. Soma-se a isso o aumento da fiscalização e a diminuição da burocratização na difusão dos auxílios governamentais. Assim, o desenvolvimento social poderá deixar de ser uma utopia para o Brasil.